Liberdade acima de tudo

E o desespero em cima de nós.

Luide
Luide
8 de março de 2019

Começa como uma novidade. Logo se torna um hábito e quando se menos percebe, já é uma obsessão. Algo que ao invés de ser um simples hobbie ou diversão acaba nos definindo como pessoa. Não é possível mais dissociar você de tal prática. Aquilo nos prende, nos domina, mas ao mesmo tempo… nos liberta. Talvez precisamos nos agarrar em alguma jornada íntima que mais ninguém entenda. É isso que nos move enquanto seres humanos: realizar pequenas loucuras diariamente afim de nos sentirmos vivos.

Coisas que vão desde um desempenho ainda melhor no trabalho até a performance no esporte. Ou então escalar El Capitán, uma parede de pedra de 975 metros, sem o auxílio de cordas ou qualquer tipo de equipamento. Essa é a obsessão de Alex Honnold. Essa é sua maneira de se sentir livre.

Assistir a Free Solo, o documentário vencedor do Oscar 2019, é uma tarefa exaustiva. Ao final do filme o sentimento de alívio é inevitável, já que a ideia de escalar uma montanha já parece um tanto desafiadora para a maioria de nós e fazer isso sem qualquer equipamento de segurança é ainda pior. Só com o corpo, Alex Honnold quer realizar algo que ninguém jamais fez e se tornar o primeiro homem a fazer um “free solo” na famosa El Capitán do parque de Yosemite.

O documentário é bastante focado em sua pessoa, na forma como ele encara esse desafio e sua obsessão pela escalada livre. Mas também da espaço para aqueles que irão registrar toda essa aventura doentia, mostrando o dia a dia dos cinegrafistas e seus dilemas morais. As chances de Alex cair e morrer são altíssimas já que ninguém até hoje foi confiante e maluco o suficiente para realizar essa escalada. Se ele conseguir eles terão um excelente material em mãos, mas e caso ele despenque? O que fazer? Manter o foco na sua morte e seu corpo estraçalhando no chão?

É justamente por isso que Free Solo potencializa o sentimento de desespero no espectador. Mas o que esse cara está tentando fazer? Porque? Qual o sentido de tudo isso? Ele vai morrer! Para dramatizar ainda mais o que já é dramático por pura lógica, o documentário mostra o recente relacionamento de Alex, sua nova vida (ele vivia em uma van e agora comprou uma casa etc) e também colhe depoimentos da mãe. Pra deixar tudo ainda pior, durante as gravações um escalador amigo de Alex morre em uma queda. Aliás, mortes são comuns nesse esporte.

Antes de Alex finalmente tomar a decisão de subir os 975 metros, somos preparados para os pontos mais críticos da escalada, com as fendas e trechos que desafiam até mesmo o mais habilidoso de todos. É uma espécie de gamefização: se ele passar por ali… ufa! Ao chegar o momento decisivo, você já não sabe mais se desliga a TV e vai até o Google ter um spoiler se Alex está vivo, ou segue grudado no sofá. No fim você descobre, mas que tensão, que agnoia, que desespero. Que sufoco. AAAAAAAAAA!

Ainda bem que filmes tem finais. Eu não iria suportar ficar ali por muito tempo. A liberdade tem um preço altíssimo.

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