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Jojo Rabbit: pode fazer piada com nazismo?

Pode.

Por Luide
20 de janeiro de 2020

No dia que tive o desprazer histórico de assistir ao discurso do ex-secretário da cultura do atual governo, que trazia nele uma estética fascista e com frases de um nazista, também foi o dia que tive o prazer de assistir a Jojo Rabbit, novo filme de Taika Waititi, que se alguém me explicasse do que se trata, certamente me causaria confusão.

Veja, é um filme que se passa na Alemanha nazista prestes a ser tomada pelos soviéticos. A estrela do filme é um garotinho simpático ao regime genocida que tem como amigo imaginário ninguém menos que o próprio Hitler. Lendo esse pequeno resumo da obra, você se pega pensando que mensagem exatamente o diretor gostaria de passar, já que bem, 2020 e voltando ao início do texto, teve secretário da CULTURA de um país como o Brasil ecoando discurso nazista.

Da pra brincar ou satirizar algo que ainda está enraizado na sociedade? Dizem que Steven Spielberg escolheu os nazistas como vilões de Indiana Jones justamente por ninguém ter empatia com eles, mas… será que essa verdade ainda prevalece? (meia hora no twitter e você irá conhecer alguém que defenda o direito alheio em ser nazista, enfim). De todo modo, por mais bizarro que Jojo Rabbit possa parecer, é um filme tão surpreendente e incrível, que somente um maluco criativo como Taika Waititi poderia fazer.

Aliás, fica a pergunta: até onde a imaginação desse cara pode chegar? Porque é incrível como ele consegue extrair uma boa história de um tema tão complicado. Como assim um garoto nazista amigo do Hitler? Mas por mais que essa mistura de deboche e bizarrice seja o verdadeiro trunfo de Jojo Rabbit, ainda sobra espaço para mostrar como ideologias extremistas são tão convidativas aos adolescentes. Vamos combinar: nem precisaria disso.

Até porque a força de Taika Waititi está em debochar mesmo, coisa que ele faz muito bem. Alguém que conseguiu impor muita personalidade na fábrica de mesmice da Marvel merece nossa atenção pra sempre. E aqui não decepciona. Jojo Rabbit talvez seja um dos mais criativos filmes dessa temporada de premiação, mesmo que baseado no livro Caging Skies de 2008, mas que nem de longe tem o tom empregado pelo diretor.

Taika escolheu o humor para contar a velha história de uma amizade impossível: o pequeno nazista que encontra em uma garota judia uma verdadeira amizade. Se no Brasil de 2020 ainda estamos debatendo o que pode ou não ser alvo de humor (caso Porta dos Fundos) e repetindo pela terceira vez: tem secretário da cultura ecoando discurso nazista, Jojo Rabbit vem na hora certa.

Expor ao ridículo certas ideias pode levar a reflexão, assim como extrair humor de onde “não se deve brincar”. E é com esse pensamento que uma das cenas mais engraçadas do filme acontece: quando vários policiais cumprimentam o garotinho com o “heil hitler” de forma repetitiva.

É ali que Jojo Rabbit, a sua maneira, expõe a pervertidão do nazismo: esse é o nível de submissão que essas pessoas chegaram em prol de uma ideologia nefasta.