Isenção conveniente: artistas precisam se posicionar politicamente?

Se posicionar ou não, eis a questão.

Luide
Luide
19 de setembro de 2018

Logo que o episódio VIII de Star Wars estreou e as primeiras opiniões começaram a sair, parte dos fãs da saga não gostaram do tom político que alguns críticos adotaram ao falar do filme. Para eles, misturar política e cinema é um absurdo e não deveria acontecer. Casos assim mostram o atual deslocamento do fã de cultura pop a respeito daquilo que ele consome. Ele não enxerga a forte carga política em filmes como Star Wars ou histórias como X-Men. É como se música, cinema, televisão e quadrinhos fossem de fato um universo fantástico sem qualquer contexto com a realidade.

Essa visão faz com que o fã se surpreenda quando seu ídolo demonstra um tipo de pensamento que vai contra o que ele acredita ser correto. Quando Kanye West tuitou mensagens de apoio a Donald Trump, muitos se descabelaram e acharam um absurdo aquele tipo de posicionamento. O suposto fã desenhou na mente dele a forma como seu cantor favorito deveria se comportar e pensar, e quando a realidade não corresponde com seus sonhos, há um verdadeiro choque.

É natural e saudável que você cobre de quem admire uma posição sobre determinados assuntos. Afinal de contas estamos falando de pessoas que influenciam pessoas com sua arte. Mas essa cobrança não precisa ser necessariamente correspondida, um diretor de cinema precisa ter seu direito de ficar em silêncio a respeito de certos assuntos, assim como um cantor sertanejo pode postar uma foto de cerveja no instagram enquanto o país pega fogo. Se eu, Luide, cidadão comum tenho esse direito, eles também precisam ter.

Até ai não há de fato um problema. Você pode discordar do que escrevi e achar que sim, as pessoas precisam se posicionar não importa o quanto isso custe. Mas são apenas pontos de vista sobre um fato: a liberdade inclusive de ser isento. O problema quando essa isenção vem apenas em momentos convenientes.

A ascensão de movimentos feministas e LGBT logo foi percebida pela grande indústria que se apoderou de determinados discursos para seguir vendendo seus produtos. Não cabe a mim dizer se isso é ou não correto, o assunto não me diz respeito. Mas qualquer pessoa com um pouco de lucidez nota essas ações que tentam abraçar a diversidade e causas sociais com a única intenção de lucrar.

E isso envolve inclusive artistas, que se apropriam de gírias, memes, frases etc desse universo até então marginalizado e que agora desponta como potencial consumidor. Eles constroem suas carreiras baseado nisso, sempre apelando para o emocional do fã, se colocando como representantes de tudo que eles lutam e acreditam. Se vestem com as cores do arco-íris na Parada Gay e postam gifs da Gretchen no twitter. Estampam frases como “lacre” em suas camisetas e convocam o “fandom” para ajudar a distribuir seus novos clipes.

É justamente aí que a coisa muda de figura. Esse artista está o tempo todo colhendo os frutos de estar inserido nesse universo que ele abraça, mas quando o seu público lhe cobra um posicionamento político (e aqui não entrarei no mérito de ser X ou Y candidato) em algo que pode ter resultados diretos na vida dessas pessoas, esse artista se reserva no direito da isenção.

São nesses momentos que um cantor que adora “lacrar” precisa ter um discurso direto e objetivo. Não da pra se esquivar de uma responsabilidade que ele mesmo plantou. E mesmo que esse posicionamento seja contrário e não corresponda a expectativa dos fãs, é e necessário que aconteça parar que não haja dúvidas de suas atitudes. É bom deixar as coisas claras e ai vai de cada indivíduo decidir se segue ou não sua peregrinação de idolatria.

Todo mundo tem o direito de ser isento, ao menos que sua isenção seja conveniente.

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