Era melhor ter cancelado

Com cheiro de velório, fez muito sentido a última temporada de House Of Cards estrear em pleno feriado de Finados.

Luide
Luide
12 de novembro de 2018

É um tanto deprimente assistir aos últimos episódios de House Of Cards. Se o luto pela morte de Frank Underwood não faz parte da trama, o sexto ano tem cheiro de velório. Cada minuto que se passa assistindo a esse morto-vivo em formato de série vem acompanhando de um sentimento de “podiam ter cancelado“. A Netflix viu sua menina dos olhos desmanchar diante de escândalos envolvendo seu protagonista. O que antes foi um motivo de orgulho, de revolução e fez o serviço de streaming chegar até na premiação mais importante da televisão, hoje mais parece um suspiro de alívio.

“Ainda bem que acabou, ufa”.

É difícil imaginar uma série dramática que não se constrói em cima da trajetória de seu protagonista. Aliás, praticamente todos os grandes dramas funcionam assim. Você consegue imaginar Breaking Bad seguindo sem Walter White? The Sopranos sem Tony? Sons Of Anarchy sem as besteiras do Jax Teller? Quando você deposita toda sua trama na conta de um personagem central, não faz o menor sentido seguir sem ele, mesmo com um excelente elenco de apoio.

No caso de House Of Cards se imaginou que isso poderia ser feito. Após as graves acusações de assédio de Kevin Spacey vir a tona, a Netflix ameaçou cancelar a série, mas produtora correu e fez as devidas mudanças. Uma sexta e última temporada com apenas 8 episódios colocaria um fim nessa história. Acontece que o acordo com a Netflix dizia que nem mesmo fotos do personagem poderiam aparecer. Como House Of Cards sempre foi uma série bastante cínica, não seria tão difícil assim zombar dessa situação. E é mais ou menos isso que acontece o tempo todo durante os primeiros episódios, com Claire Underwood por vezes quebrando a quarta parede e perguntando ao espectador: “você sente falta dele?“.

Bom, a verdade é que sim. Óbvio que após tudo o que aconteceu seria indigesto assistir a Kevin Spacey, mas o fato é que infelizmente House Of Cards era a sua série. Robin Wright é uma grande atriz e ao longo das últimas temporadas cresceu como personagem e chegou a dividir o protagonismo. Mas seu papel nessa despedida é cruel. Ela precisa segurar uma bomba nuclear com as mãos. E claro que não consegue salvar tudo sozinha.

Episódios confusos, trama requentada em uma espécie de sopão das últimas temporadas: pega tudo que deu certo, o que deu errado, mistura e cria uma nova história. Que de nova não tem nada e fica em um eterno pra lá e pra cá. Parece mesmo fim de festa. Até o elenco da sinal de cansaço e não se esforça muito pra dar alguma veracidade pro roteiro. É como se todo mundo estivesse cansado dessa caricatura que se transformou House Of Cards, onde tudo é muito teatral.

Aquela vibe meio “poxa será que é realmente assim na Casa Branca?” deu lugar a olhos revirados. Mas isso não vem de agora, há algum tempo House Of Cards virou uma bobagem que foi sendo esticada pela Netflix. Ninguém sabia como encerrar aquela grande série que chamou a atenção de todo mundo, mas também ninguém esperava que ela teria que ser encerrada desse jeito.

É um fim lamentável. Se você estiver afim de comparecer, o velório de House Of Cards está disponível na Netflix desde o feriado de Finados. Sacanagem…

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