A hora de partir

Adeus e obrigado.

Luide
Luide
24 de abril de 2019

A rotina pode nos prender em um ciclo de repetições e conformismo. Sem perceber você não se lembra mais do porque executa as mesmas tarefas dia após dia. Com isso vem a insegurança: “e se tudo isso aqui ruir? O que será de mim?“. O medo da mudança e o sentimento de não merecer algo melhor te coloca em uma posição de subserviência, apaga suas qualidades e te limita. Aquela tal de Síndrome do Impostor levada ao pé da letra. E isso obviamente não se restringe ao mercado de trabalho.

Aquele relacionamento que há muito tempo só te causa dor e humilhação. Mas você insiste, afinal de contas, você se conformou que não passa de uma pessoa horrível, quem mais no mundo poderia te amar? Você se rebaixa. Se esquece de si mesmo. Se acostuma. Quanto mais o tempo passa, mais difícil é perceber que ainda existe alguém ai dentro, cheio de vida e de qualidades. Mas é difícil entender quando é hora de partir.

The Other Woman de Mad Men é um desses episódios que podemos chamar de clássicos da televisão. Matthew Weiner sempre criou arcos narrativos que se entrelaçam entre si, histórias que se cruzam em diferentes episódios. Uma aula de roteiro e de como conduzir seus personagens. E se ali existe toda uma questão sobre o corporativismo masculino e o poder sobre o corpo da mulher, há também uma poderosa mensagem sobre independência, aquele momento de coragem onde tomamos uma decisão que pode mudar nossas vidas. E isso é contado através de Peggy.

Não é fácil para ela decidir que chegou a vez de sair debaixo das asas de Draper, já que, afinal de contas, ali não há mais espaço suficiente para ela. Chegou a hora de voar. Desde que pisou pela primeira vez na Sterling Cooper ela precisou se provar. Vez após vez. E nunca era o suficiente. As sombras do poderoso Don, sua criatividade e inteligência encontravam uma barreira. Mas estava tudo cômodo: ela ainda era a melhor dali, tinha um bom salário e executava todas as suas tarefas. Além é claro de estar sobre a tutela de um dos homens mais respeitados do mercado.

Ela precisa abandonar aquilo tudo? Precisava.

É difícil entender quando estamos sendo podados. Quando nosso amor próprio se foi em prol de outra pessoa. Quando nossos esforços são para manter um relacionamento imaginário. Quando a força de nosso trabalho serve apenas para o crescimento alheio. É difícil e doloroso dar adeus aquilo que nos mantém na completa inércia. Por que sair daquele relacionamento que me faz mal, se pelo menos é ele quem ouve meus lamentos? Por que procurar outro emprego e deixar esse que me causa sérios problemas se é ele quem paga minhas contas?

Em 2011 abandonei um emprego público e vim para São Paulo realizar meu sonho de viver de conteúdo. Foi uma decisão difícil, ainda me lembro de minha mãe chorando na rodoviária quando parti (aquelas memórias que parecem cenas de filmes de tão icônicas). Era minha hora de partir, de sair do comodismo e arriscar. Deu certo, nem sempre dá, mas eu fiz e não será disso que irei me arrepender na velhice.

Peggy leva apenas sua caneca e garrafa de café do agora antigo emprego. Antes do elevador chegar um sorriso no rosto: ela venceu Don Draper.

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