A assustadoramente bela e incômoda Hannibal

Série consegue transformar corpos mutilados em verdadeiras obras de artes

Luide
Luide
5 de maio de 2016

Policias, agentes do FBI, médicos, enfermeiros e advogados são as profissões favoritas das série procedurais, aquelas que apresentam um caso semanal a ser resolvido até o fim do episódio. Um formato bastante aceito na tv, afinal de contas, o espectador médio não precisa se preocupar em entender como aquele universo funciona e as motivações de seus personagens para curtir aqueles 40, 50 minutos de show.

Diferentes de dramas como Breaking Bad e Game Of Thrones que seguem uma linha narrativa onde perder um episódio significa se perder da série, as procedurais criam semanalmente casos onde se sai do nada pra se chegar a lugar nenhum. Pra isso os personagens precisam vir prontos: são médicos habilidosos e detetives genais que estão sempre um passo a frente.

No meu primeiro contato com Hannibal acabei caindo fora no terceiro episódio da primeira temporada. O início deixava entender que seria mais uma série com mais um super detetive, com super poderes de decifrar crimes, com super vilões e super assassinatos. Bem, não estava de todo errado. Após assistir aos 13 primeiros episódios, Hannibal parece uma refeição que começa com uma entrada ruim, mas serve um bom prato principal.

Hannibal: uma entrada ruim seguida de um bom prato principal

O “assassinato da semana” é recompensado por uma estética belíssima e uma trilha sonora medonha. A maneira como tornam o horror em praticamente arte é uma boa escapatória para mostrar vísceras e pessoas mortas, afinal, Hannibal é da NBC, canal aberto, que não desfruta, por exemplo, da mesma liberdade de The Knick que é do Cinemax. Palmas para James Hawkinson, diretor de fotografia, que consegue essa proeza.

Hannibal uma série incômoda. Quando Hannibal Lecter está cozinhando, uma mistura de nojo e encanto toma conta do ar (aquele fígado não é bem de boi). Você consegue ler toda crueldade do psiquiatra sem que ele mate ninguém frente às câmeras (na verdade mata uma vez, mas é legítima defesa etc). Existe uma beleza em Hannibal difícil de ser digerida, é algo que você sente vergonha de achar tão lindo, como um totem feito de membros humanos ou uma hortinha de cogumelos plantada em corpos.

Hannibal ainda investe pesado no psicológico de Will Graham, o ex-detetive que retorna a campo como consultor do FBI, após do convite de Jack Crawford (Laurence Fishburne subaproveitado). Apesar da cafonice de mostrar sua habilidade de recriar em mente as ações de uma assassino, Will é uma espécie de fantoche de Dr. Lecter, interpretado de uma maneira brilhante por Mads Mikkelsen, ator que esse ano estará em Dr. Estranho e Rogue One.

Will é um sujeito perturbado, uma verdadeira bomba relógio e é Dr. Lecter quem resolve dar corta. Depois dos complicados primeiros episódios que servem como isga pra nos fisgar, a série dedica mais tempo a relação entre ambos. Gosto de personagens que viagem dentro da própria cabeça pra conhecer a si mesmo e Hannibal fornece bons momentos assim. Mesmo que a série seja insuportável quando os legistas do FBI estão explicando tecnicalidades dos assassinatos, os momentos onde Will e Hannibal estão frente a frente são ótimos.

No final da primeira temporada, sai com a barriga farta do banquete servido. Talvez ser concebida na tv aberta tenha sido, afinal de contas, uma vantagem. Tornou-se assustadoramente bela, com aquele flerte com o pior do ser humano mostrado como uma obra de arte.

Agora, se me dão licença, a segunda refeição, digo, temporada, me aguarda.

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