A cientologia e o adestramento de seres humanos

Documentário explora o submundo de uma seita que ganhou na justiça o status de religião

Luide
Luide
20 de outubro de 2016

Sou ateu. Esse é um tipo de “informação” a meu respeito que evito dar, afinal, creio que influencie em absolutamente nada na minha personalidade e na maneira como encaro a vida. Ao mesmo tempo que “ser ateu” atualmente implica ser uma série de coisas, ou pior, seguir algumas inclinações políticas ou de pensamento, dentre as quais não me encaixo. Ainda por cima, criou-se a ideia de quer ser ateu significa ser contra a igreja, a fé, e lutar por algumas causas como taxar igrejas, ironizar feriados cristãos como Natal e Páscoa, e tratar a espiritualidade alheia com completo desdém. Algo que passa longe de qualquer coisa que eu acredite nos dias de hoje.

Mas nem sempre foi assim. Minha infância e juventude foi marcada pela forte presença da religião através das Testemunhas de Jeová. Não apenas a minha vida foi parcialmente influenciada durante esse período, como de toda a família. E muito desse “abuso” deixou marcas por um longo período. Hoje acredito que fé é justamente o contrário que a maioria dos ateus pregam. Fé liberta, consola, da ao homem uma motivação além da material, física, faz com que a vida seja algo maior e mais significativa do que apenas consumo e prazer.

Comigo, infelizmente, não foi isso que aconteceu. Me sentia preso, sufocado por uma série de normas, regras estranhas, rituais (sim, podemos usar essa palavra) e uma certa lavagem cerebral que me impedia de questionar sobre aquilo que me era ensinado. Going Clear: Scientology and the Prison of Belief, documentário disponível na Netflix, fala sobre cientologia, mas de uma maneira bastante indireta acabou revivendo um período obscuro de minha vida.

Peça a um cristão, judeu ou islâmico explicar a fé deles. Em menos de um minuto eles te darão a resposta. O mesmo não acontece na cientologia

A seita que ganhou status de religião graças a uma batalha jurídica, nasceu nos EUA do pós-guerra e no documentário de Alex Gibney, pessoas que durante anos (alguns, décadas) estiveram ligadas a cientologia, deixam seus relatos sobre os diversos tipos abusos físicos e psicológicos, e como as ideias de um homem perturbado foram evoluindo para uma máquina de ganhar dinheiro e transformar pessoas em zumbis ideológicos.

Tom Cruise é hoje o principal porta-voz da “religião”

Caminhe por qualquer periferia e se surpreenda com o número de igrejas que parecem brotar a cada esquina. Somente no quarteirão de onde moro, um bairro de Osasco, existem 5. Se por um lado existe a denúncia de pastores que abusam da carência espiritual e transforma a fé em negócio, por outro, a religião ao redor do mundo existe com o objetivo de proporcionar o bem as pessoas. Agora, cabe a quem definir o que é ou não uma religião? O que define uma religião?

A cientologia foi criada por L. Ron Hubbard na década de 50, e basicamente surge como um movimento de auto-ajuda, o velho “você pode mais”. O diferencial aqui era a mistura de uma psicologia barata com uma ficção científica trash que nem mesmo Michael Bay teria coragem de filmar. Aliás, muito antes de ser o líder espiritual que se dizia ser, Ron Hubbard foi escritor das famosos revistas pulp fiction, e sua especialidade eram, claro, histórias que se passavam no espaço, alienígenas e essas coisas que encantaram o homem no início do século XX.

Hubbard desde sempre demonstrou tendências a loucura, e o documentário explora de maneira rápida e precisa alguns momentos que evidenciavam sua insanidade. Ao mesmo tempo, somos questionados sobre suas reais intenções, afinal, Hubbard realmente era o que parecia ser: apenas um louco com um projeto de criar um rebanho de seres lobotomizados. Mas após sua morte, um de seus discípulos deu a cientologia a cara de hoje em dia. Um grupo tremendamente organizado, com objetivos de expansão bastante claros, agressiva a seus críticos e claro, ambiciosa.

David Miscavige, o homem que transformou uma seita em negócio

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief é um documentário bastante incômodo e existem várias razões pra ser. Primeiro que não é apenas no campo da fé que esses agentes agem, buscando criar uma horda ideológica que seguirá seu mestre e seus ensinamentos com vigor. Basta 10 minutos de rolagem em qualquer timeline de qualquer rede social para ver sinais desse tipo de comportamento. O fato de uma pessoa se propor a defender com unhas e dentes, por exemplo, um político ou alguma celebridade, já mostra essa inclinação instintiva do ser humano em seguir ordens.

É uma pena que esse tipo de acusação recaia apenas sobre a religião, quando na verdade, o comportamento de manada está presente nos mais diversos tipos de lugares e mídias. Tome cuidado.

Seja assinante e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 31/08/2016

  • Luide

The Mask You Live In: quantas vezes te disseram “seja homem”?

  • 30/06/2016

  • Luide

Steak Revolution é um documentário essencial para quem come carne

  • 03/06/2016

  • Luide

Requiem For a American Dream: o mundo de Mr. Robot não é ficção