A gente só morre quando é esquecido

A vida é uma festa que só acaba no esquecimento.

Luide
Luide
27 de fevereiro de 2018

Meu pai faleceu em 2000, na época eu tinha apenas 12 anos de idade. Foi um choque. Hoje, 18 anos depois, pensar na minha relação com ele é um exercício de entender melhor a relação com a minha filha. A figura do pai era meio distante e apesar de nos relacionarmos bem, gostaria de poder ter tido a chance de cultivar ainda mais boas memórias dele. Mas ele se foi, e além de mim, o que ficou?

Luide (herdei o nome de meu pai) também era apaixonado por ciência e ficção científica. Certa vez me acordou na madrugada pra ver uma chuva de meteoros. Essa é uma lembrança viva, que pulsa em minha mente sempre que me pego brincando com minha filha. É como se de alguma maneira meu pai estivesse vivo. Na verdade ele está. E é assim que me relaciono com a morte desde então. A morte, o fim de tudo, só vai acontecer se um dia essa memória se apagar pra sempre, algo que não pretendo deixar acontecer, repassando pra minha filha meus valores e que ela passe a diante caso um dia resolva ter filhos.

Coco (Vida, A Vida é Uma Festa) é mais uma animação brilhante da Pixar, onde a ancestralidade, a família e a morte são seus principais temas de abordagem. Aqui somos levados para o México, onde a relação com o fim da vida é bastante diferente da nossa. Aqui ir ao cemitério no dia dos Finados é sinônimo de respeito e saudade. Lá é reverência. Os mortos se foram, mas deixaram suas lembranças e enquanto ela existir, eles estarão vivos.

É um tema delicado de se lidar e saber que um estúdio como a Pixar leva esse tipo mensagem misturada a entretenimento para milhões de crianças é simplesmente maravilhoso. Tem filme dito “adulto” que não tem 1% da profundidade e seriedade que Coco. Não é à toa que a Pixar é um desses nomes que a gente respeita e vai atrás de tudo que eles lançam.

A história do pequeno Miguel é fascinante. O garoto precisa lidar com as tradições de sua família ao mesmo tempo que sonha em seguir a carreira de música. A forma como a história se desenrola e se resolve mostra que é possível respeitar tradições, manter determinados valores e ainda assim, arriscar, melhorar e seguir em frente. Em um mundo polarizado, onde ideias conservadoras e progressistas se chocam, Coco nos lembra que onde existe amor e cuidado envolvido, pra tudo se dá um jeito.

Se hoje você, jovem, se vê diferente daquilo que seus pais imaginam, é possível que daqui alguns anos pense diferente. Ou melhor, o seu jeito de ser talvez não seja assim tão estranh e que bom se seus pais te apoiarem. Em Coco, Miguel quer ser músico, mas a música é quase uma maldição em sua família. Como os pais deveriam agir? Ou como o pequeno Miguel deveria agir? A solução é doce: conversando.

Na hora do aperto, foi a família que Miguel renegou que estava pronta pra ajudar. E no fim é isso que importa. Perto do fim, ele conta a história de seus ancestrais para a irmã mais nova. Isso é manter a memória daqueles que já se foram viva e, com isso, dar a essas pessoas a eternidade.

Jamais esqueça daquelas que partiram.

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