Foi difícil assistir a Animais Noturnos

Foi difícil, mas valeu a pena

Luide
Luide
16 de janeiro de 2017

Cultura pop é absorção. A experiência de assistir a um filme ou série depende do quão aberta sua mente está para receber aquele conteúdo. Claro que determinados momentos de sua vida vão ditar o resultado dessa exposição. Por exemplo, quando se é criança, é fácil gostar de um monte de porcaria, já que você não possui bagagem cinematográfica para definir um “gosto”, e também por simplesmente não estar nem aí pra direção, roteiro, montagem e etc.

É por isso que desde que me tornei pai, certos filmes ou séries passaram a ter impactos diferentes. Interstellar foi o tipo de obra que teve uma mudança drástica de entendimento graças ao nascimento da minha filha. A Chegada é outro. This Is Us também. Até mesmo Breaking Bad e Sopranos passaram a ter um peso maior. Tudo porque a paternidade influencia diretamente meus sentimentos, e na maioria esmagadora das vezes o resultado é bem positivo.

Com Animais Noturnos, o filme de Tom Ford que desponta como um dos favoritos as indicações ao Oscar, foi uma relação diferente. Temos uma história tensa e amarga sobre vingança, o que automaticamente requer uma mente preparada para isso, mas foi difícil me entregar de corpo e alma graças ao seu início bastante perturbador. Explico sem dar spoilers.

A estrutura é bastante interessante e mistura diferentes linhas do tempo com diferentes narrativas. Susan Morrow (Amy Adams) recebe de seu ex-marido Edward Sheffeld (Jake Gyllenhaal) um manuscrito de seu próximo livro. O filme então estabelece a ficção dentro da ficção, já que os acontecimentos do livro também são dramatizados em tela. É aí que ficou difícil.

No que diz respeito aos acontecimentos narrados do livro, temos uma cena de início que somente quem tem a quem proteger sabe do gosto amargo que fica na boca apenas de imaginar algo do tipo: um pai e sua família viajam a noite por uma estrada deserta do Texas, quando um grupo de homens (Aaron Johnson é o líder deles) cerca o carro, os tira da estrada, e começa um verdadeiro ataque psicológico.

Existe todo tipo de absurdo covarde ali, que vão desde agressões físicas a investidas contra a filha e esposa do protagonista do livro (também interpretado por Jake Gyllenhaal).

A impotência do pai, seu pânico em ver tudo aquilo se desenrolando em sua frente, me tirou completamente o foco da história. É um tipo de sensibilidade que cega. Mesmo sabendo que é ficção, que aquilo é puro cinema, a sensação de desconforto é forte.

É por isso que Tom Ford merece sua atenção. Cinema também é emoção, infelizmente, boas e ruins. Se alguém consegue te tirar da zona de apatia, ótimo. É uma cena que me tirou o ar, muito bem dirigida, com o pânico tomando conta do ambiente de uma maneira que o peito parece querer pular pra fora. Tive que respirar, contar até 10, e voltar a focar minha mente na história, que acredito ser bem resolvida, apesar de todo simbolismo e analogias do “livro” com a história da personagem de Amy Adams.

Foi difícil assistir Animais Noturnos. Mas valeu a pena.

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