Fargo é uma série que merece cada elogio e prêmio que recebeu

Finalmente assisti a primeira temporada de Fargo. E você deveria fazer o mesmo

Luide
Luide
3 de novembro de 2015
 

Assistir a Fargo é a mesma coisa que estar em um mega apartamento de luxo olhando os vizinhos mal sucedidos, todos em terríveis condições enquanto você desfruta de um ambiente agradável. É ver que você deu certo, mas os outros mesmo tentando não.

Em uma era onde as séries de tv passaram a ter uma importância tão grande para a cultura pop como o cinema, e estréia após estréia vemos os índices de audiência subindo, com mais e mais redes dispostas a gastar milhões em novas obras, é óbvio que essa corrida iria gerar muita porcaria. Como o cinema. E buscar mentes criativas para dar vida a tais obras não é tão fácil assim, então o jeito é muitas vezes apelar para o caminho mais fácil.

Um desses caminhos são adaptações de filmes para seriados, pegando aqui e ali alguma história que já foi contada e trazê-la para a tv. Funciona? Funciona, as pessoas estão aceitando muita bobagem. É bom? Aí é outra conversa. Enquanto a maioria das adaptações possuem qualidade duvidosa, Fargo caminha contra qualquer expectativa negativa. A série de Noah Hawley consegue fazer jus a obra prima em que se baseia e entrega uma primeira temporada primorosa, que faz por merecer os calorosos elogios e as várias premiações em Emmy, Globo de Ouro e derivados.

Mas o fato é que Fargo não pode ser considerada uma “adaptação” literal. Noah Hawley se baseia no universo criado pelos Irmãos Coen em 1996 e conta novas histórias, seria mais um revisita ao gélido estado de Minnesota, EUA. Há sim muita influência dos Coen, desde na criação de personagens ao humor muito típico dos diretores.

Não da pra falar de Fargo sem o que pra mim são seus três principais elementos: elenco, fotografia e trilha sonora. Assim como grandes obras da tv, Fargo é certeira em cada personagem dedicado em tela, não há ali uma única atuação dispensável. Martin Freeman (Lester), Allison Tolman (Molly) e Bob Odenkirk (Bill) são destaques, mas cabe a Bob Thornton o papel que certamente já figura entre um dos mais memoráveis da história da tv: Lorne Malvo.

Malvo é o típico vilão que parece indestrutível. Intocável, sempre a frente dos outros, inteligência quase sobre humana, é como se fosse a personificação do demônio. Ter Malvo em tela é sinal de momentos inesquecíveis, com suas histórias e analogias sempre perfeitas para aquele momento da história. Buscando referências em outras obras dos Coen, Malvo me lembrou em vários aspectos o terrível Anton Chigurh de Onde Os Fracos Não Tem Vez.

Lorne Malvo: o poder de ver mais tons de ver…

Sua jornada ao longo dos 10 episódios é cheia de novos caminhos, o personagem muitas vezes se desliga completamente da linha narrativa principal, mas nunca sem deixar de fazer parte da mesma. É Malvo que faz com que Lester busque dentro de si mesmo o verdadeiro canalha amargurado que sempre foi e dando início a “comédia dramática de erros” que é Fargo. É assim, com um simples diálogo dentro do hospital que Marvo surge como o mal encarnado, dando o sopro principal para uma reação em cadeia que colocará tensão na pequena e bucólica cidade de Bemidji.

Mas não daria para contar a história de Fargo sem os outros dois elementos que destaquei logo acima: a fotografia e a trilha sonora. Dois elementos que atuam ao lado dos personagens, com peso e importância quanto qualquer morador da cidade. Cada enquadramento é primoroso e faz com que a série de TV, mesmo contando outra história, realmente tenha o sabor do filme dos Coen. Assim como Albuquerque é perfeita para Breaking Bad devido suas cores, não da pra imaginar Fargo sem o branco da neve.

A melancolia de uma cidade pacata onde nada acontece é jogada em tela, e assim você entende e muito as motivações e conduta dos personagens. A trilha sonora é a cereja desse bolo e seu tema principal é tão desolador quanto o clima da região.

A primeira temporada de Fargo pode e deve ser considerada como uma obra prima da TV. Bem escrita, bem dirigida, elenco fantástico, um deleite, uma obra que consegue manter o nível do filme no qual buscou inspirações. O difícil depois de Fargo é olhar para a neve não sentir saudades dos bons momentos que passamos em Bemidji.

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