A exceção não pode se tornar o regra: o seu papel no combate ao “nerd tóxico”

Não é possível que eles vençam.

Luide
Luide
13 de junho de 2018

Nós temos um péssimo defeito em exaltar aquilo que odiamos. Sim, nós. Eu, você, seu vizinho e o grupo da família no WhatsApp. Raiva, ódio, irritação são sentimentos que ganham uma atenção desproporcional no nosso dia-a-dia. 10 minutos em qualquer rede social são suficientes para comprovar essa nossa tendência a dar mais atenção aquilo que nos incomoda, nos irrita. Quantas pessoas você conhece que passam mais tempo postando sobre como odeiam o Felipe Neto, mas não compartilham um vídeo sequer de algum canal que gosta? Não apresenta ao amigo seu podcast favorito? Não da retweet pra fortalecer o trabalho de alguém que produz bom conteúdo?

É esse tipo de atitude que cria uma falsa ideia de que o ódio está vencendo, porque quem odeia grita, esperneia, faz barulho. Já quem gosta parece ter vergonha de dizer, fica na sua isolado. Mas chega um momento que é preciso se unir e gritar ainda mais alto, já que fazer uma parcela burra de pessoas calar a boca é impossível.

Kelly Marie Tran é a atriz que interpretou Rose em Star Wars e esteve nas principais manchetes dos sites de cultura pop nos últimos dias. O motivo? Após meses de ataques em seu instagram, a atriz resolveu abandonar a rede social. Meses sendo atacada por fãs, meses suportando todo tipo de piada e insinuação. Meses. Meses. Tudo porque ela não conseguiu a sagrada aprovação do fã afetado. Tudo porque sua personagem foi mal construída. É óbvio que a culpa é da atriz e da suas origens.

Rian Johnson, diretor de Os Últimos Jedi, se pronunciou dizendo o seguinte: “Nas mídias sociais, uma minoria doente consegue projetar uma grande sombra na parede, mas nos últimos quatro anos eu conheci muitos fãs reais de Star Wars. Nós gostamos e não gostamos das coisas, mas fazemos isso com humor, amor e respeito. Somos uma VASTA maioria, estamos nos divertindo e estamos indo bem”. Para Johnson existe uma “minoria doente” contra uma “vasta maioria” que está se divertindo, mas aparentemente essa vasta maioria está perdendo ou acha que tudo na vida é só diversão.

Não só Star Wars, mas toda a comunidade dita “nerd” está apodrecendo lentamente. O discurso raso baseado em um preciosismo com aquilo que se consome da ao tal do fã munição para se achar dono daquilo. Com isso ele se vê no direito de proteger sua obra de qualquer mudança e é desse sentimento infantil que surgem as maiores barbaridades dessa comunidade. Do adulto de meia idade que se incomoda com o novo Thundercats e cobra FIDELIDADE em um desenho pra criança, ao sujeito que esperneia quando escolhem uma atriz negra para interpretar uma alienígena em uma série de televisão.

É essa “minoria doente” que vem pautando a cultura pop nos últimos anos. Não me parece uma minoria, me parece o padrão. Infelizmente aquilo que julgava ser uma exceção é a regra. O fã de Star Wars esperneia por qualquer coisa não é de hoje, e tanto choro e drama da uma espécie de aval para que outros absurdos sigam sendo ditos. Filmes e séries não são mais vistos como obras com valor cultural que pode nos elevar enquanto humanos, mas sim como um campo de guerra onde a batalha é para provar pontos.

Sinceramente estou cansado, mas me recuso a baixar a espada. Tenho uma filha que em breve estará me pedindo uma roupa da Batgirl e um boneco do Homem Aranha. Me recuso a deixar um lugar tóxico como herança pra ela. A solução é que nós voltemos a tratar o lixo como lixo, apontar o erro e parar com papinho furado e fofinho. A exceção não pode agir como regra.

Lute pelo ambiante que você teve tanto trabalho para conquistar.

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