Eu não posso ser o centro das atenções

Bojack, você é parecido comigo.

Luide
Luide
26 de setembro de 2018

Os últimos sete anos da minha vida profissional foram dedicados ao mesmo projeto. Quando desembarquei em São Paulo lá em 2011, vim com a ideia fixa de criar e produzir conteúdo para a internet. Parte do portal Não Salvo e mais recentemente do podcast Não Ouvo, trabalhei ao longo desse período fazendo aquilo que achava ter nascido para fazer. Mas esse ciclo se encerrou e logo em seguida me vi em uma nova oportunidade, um novo trabalho, que mexeria (e ainda mexe) com a minha rotina diária.

Os primeiros dias foram difíceis. Não pelo trabalho em si, mas de como eu reagia a toda aquela novidade. De repente me coloquei em uma posição de vítima, oprimido e cobrei de todos a minha volta uma atenção especial. Atitudes desse tipo são comuns quando nos sentimos assim, desprotegidos e fora da zona de conforto. Ser o centro das atenções é sempre um caminho que insistimos em trilhar. Mas ser obcecado com isso é um sinal de alerta.

A primeira temporada de Bojack Horserman é basicamente sobre isso. Um cavalo de meia idade que vive a luz de um sucesso do passado e em uma busca constante por aprovação e atenção no presente. A comédia da Netflix feita por fãs de dramas tem um protagonista que vive dilemas comuns do homem moderno, em uma espécie de eterna negação do amadurecimento, quase infantilizado em suas ações.

Bojack precisa estar no centro de tudo que existe e as pessoas que se virem para se adequar aos seus desejos. Seus amigos, ex-namoradas e paixões acabam lidando com suas afetações diárias. Como fica claro na primeira temporada, Bojack é o homem (ou cavalo) emocionalmente mal resolvido, típico em nosso meio. Não falamos abertamente dos nossos sentimentos, achamos que terapias são coisas de gente “fresca” e não suportamos a ideia que nem sempre aquilo que sentimos pelos outros é recíproco.

Não precisa conviver pessoalmente com outros homens para perceber esse problema, alguns minutos em qualquer rede social são mais do que suficientes para encontrar um “Bojack“. Homens que se portam como verdadeiros cruzados, com cara de mal, mas que na primeira provocação se mostram as pessoas frágeis que são. A consequência disso é uma constante busca por aprovação, uma sustentação de personalidade, que no fundo ele não é nada disso que vocês estão dizendo. Ele é durão e toma whisky para esquecer dos problemas.

Mas o fato é que esse turbilhão de sentimentos mal resolvidos vão criando uma armadura, onde a pessoa se esconde sempre que se sente acoada. No fim, se portar como se Universo surgiu do seu próprio umbigo é a única saída para não resolver todas essas pendências. Os outros que se moldem aos seus desejos.

Bojack é um cavalo, mas é bem parecido com todos nós.

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