Essa história do Biel me lembrou de White Bear de Black Mirror

Punição, justiça e entretenimento caminhando lado a lado

Luide
Luide
4 de agosto de 2016

White Bear é um dos episódios favoritos da grande maioria dos fãs de Black Mirror. Faz por merecer. Além de fornecer uma história bastante perturbadora, com elementos de terror, tem seu momento plot twist, mostrando que tudo não passou de uma encenação desde o início. A pobre da moça na realidade participou de um assassinato, o que lhe rendeu condenação.

Mas é só isso? Obvio que não. Em se tratando de Black Mirror, precisamos sempre tentar enxergar além da superfície. Afinal, qual a mensagem nesse episódio?

Em um primeiro contato nota-se que White Bear lida com um dos aspectos mais terríveis do ser humano: o prazer na dor alheia. É um voyeurismo diário que nos leva a saborear imagens de tragédias na televisão, compartilhar problemas e enviar aquele vídeo de um acidente pra família no whatsapp. Nós gostamos de falar do vizinho que foi demitido, saber que o fulano perdeu tudo o que tinha no jogo. A mulher daquele cara fugiu com outro? Bem feito. O que? O ele tinha duas famílias? Hahahah!

E isso acontece o tempo todo, seja de forma mais tímida ou escancarada, como no caso do homem traído que pegou a mulher no motel. O sofrimento virou espetáculo, entretenimento. Basta ver os programas que transformam a condição degradante de alguns brasileiros em números de IBOPE. Aquele apresentador de domingo não está nem um pouco comovido com a família que vive em uma casa de papelão, ele quer saber se o outro apresentador de domingo vai conseguir uma audiência maior. E por algum motivo nós adoramos assistir.

Mas White Bear lida com outra questão, a de se fazer justiça. O que significa essa tal justiça? E até que ponto estamos prontos para ir em busca dela? No episódio a mulher foi condenada a viver a mesma punição todos os dias e sua dor foi transformada em espetáculo. A justiça foi transformada em espetáculo. Acha isso algo surreal? Basta lembrar de julgamentos famosos no Brasil como os de Suzane von Richthofen ou os pais de Isabela Nardoni.

O sofrimento merece ser compartilhado

White Bear Justice Park não é algo distante. Basta ligar sua tv no fim da tarde e assistir algum engravatado gritando sobre justiça. “Tem que prender“, “Tem que matar“. De alguma maneira a sociedade encara isso com naturalidade, você pega a pipoca e corre pro sofá.

Punição. É isso que gostamos, queremos ver o sangue escorrer, ouvir gritos. Sentir o cheiro de medo exalando. Afinal, nós queremos justiça. O caso de Biel é bastante interessante. O mc assediou uma jornalista, falou um monte de besteira, pediu desculpas e ficou por isso mesmo. Algumas semanas depois voltou a encenar sua ofensa em forma de música e teve seus tweets racistas, homofóbicos e machistas revelados. Foi o último golpe.

Sua assessoria informou que ele irá abandonar a carreira de cantor, ou melhor, dar uma pausa. Não é o papel desse site tomar partido nessa história, mas o caso de Biel é exatamente o denunciado em Black Mirror. Punição, justiça e entretenimento caminhando lado a lado. No fim das contas logo mais ninguém irá mais se lembrar do assunto. Biel, fruto do sistema do entretenimento, logo será reciclado e virão outros. A garota assediada ninguém mais se lembra do nome. É hora de sentar e esperar o próximo sacrifício.

Queremos sangue e estamos sempre com sede.

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