O que Black Mirror e o youtuber que cortou a placa tem em comum?

O episódio "Fifteen Million Merits" de Black Mirror pode nos dizer muita coisa sobre o caso

Luide
Luide
1 de fevereiro de 2016

Quando um canal atinge a marca de 100 mil inscritos, o proprietário pode pedir ao Youtube que lhe envie o famoso “botão de prata“, uma espécie de medalha para o mérito alcançado. Um símbolo para tanto esforço: você se dedica ao conteúdo, sua a camisa e como recompensa, o site manda pra sua casa um botão.

Como atingir a marca até algum tempo atrás era algo raro no Youtube brasileiro, criou-se uma espécie de culto a esse botão. Se alguém consegue a proeza de ter 100 mil inscritos, é preciso materializar tal marca para que seja exposta para todos. Assim, quando no final de 2015 o youtuber Aruan quebrou seu “botão de prata” foi como cuspir na cruz, o culto foi quebrado. A comunidade do site criou um alvoroço em cima disso, colocando o ato do garoto como “falta de respeito” o que gerou uma corrente de dislike.

Em Black Mirror o segundo episódio da primeira temporada “Fifteen Million Merits” narra uma história parecida. Mas pra entender onde Aruan se encaixa no contexto do episódio, é preciso ir a fundo na mensagem passada. Afinal, como já aprendemos, Black Mirror oferece uma isca na superfície e só quem é fisgado pode mergulhar a fundo e tentar entender de fato o que Charlie Brooker quis nos contar.

Aberto a interpretações (como tudo em Black Mirror), a prisão que os personagens de “Fifteen Million Merits” pode facilmente ser lida como a nossa própria prisão, afinal, o espelho negro que o próprio título da série sugere, está presente em nosso dia-a-dia mais do nós mesmos podemos perceber. A tela fria e escura de uma tv ou smartphone é a prisão que oferece incansavelmente um único produto: o entretenimento.

É estranho perceber como a tecnologia nos afasta de momentos de silêncio ou de uma solidão com nós mesmo. Antes de dormir damos uma olhada no celular, assim que acordamos checamos redes sociais, email e notícias. Ouvimos música, vemos tv, ouvimos podcast, olhamos o twitter e postamos no facebook. Pausa para curtir: vamos ao cinema ou assistimos ao Netflix ou Youtube. O dia passa e você nem percebeu que não conseguiu ficar 15 minutos sem algo para te entreter. Pra testar isso, basta notar a ansiedade ridícula que bate quando ficamos sem energia elétrica.

Em “Fifteen Million Merits” para se ter acesso a esse mundo mágico da diversão contínua, é preciso pedalar. Pedaladas essas que são convertidas em pontos que podem ser trocados por comida ou entretenimento. É um círculo vicioso sem fim, quanto mais você consome mais precisa pedalar e quanto mais pedala, mais pontos tem para consumir. O dia nasce e se põe e você foi bombardeado por opções de lazer através de uma tela.

É algo que não está tão distante assim de nós. Pagamos para não ter publicidade, mas mesmo assim não conseguimos fugir dela. Gastamos dinheiro em acessórios online de jogos. Compramos aplicativos inúteis. Assinamos tv a cabo e não assistimos mais do que quatro canais. É como se estivéssemos preso a um sistema impossível de sair. Como se fossemos obrigados a jogar a favor.

Sem perceber, tudo que amamos vai se tornando um produto. O dia das mães é especial porque você ama sua mãe ou porque aprendeu que é preciso presenteá-la nesse dia? Por que precisamos comprar ovos de páscoa? Aniversários são tão importantes? De repente, até mesmo os mais puros e singelos sentimentos são transformados em negócio.

Fifteen Million Merits” ensina que se levantar contra tal “sistema” é uma batalha perdida. Por mais que tentamos discursar contra tudo que está aí, tal discurso sempre soará como algo vazio que no fundo nem nós mesmos acreditamos. O “sistema” é doce e provocativo e fazer parte dele é um sonho em comum.

Em “Fifteen Million Merits” o personagem Bing tenta mostrar que, ao contrário dos que estão na platéia do espetáculo do entretenimento, ele não irá se vender. Bing vai se levantar contra tudo isso e arriscar a própria vida se for preciso. Mas seu discurso inflamado logo é engolido e também transformado em produto. O personagem percebe que ninguém, nem mesmo ele, acredita na veracidade daquelas palavras, mas mesmo assim, elas soam como música e é tão bom ouvi-las…

Sua revolta se torna uma atuação. Colocar na garganta aquele vidro estabelece um personagem, o cara revoltado, que diz tudo aquilo que “você gostaria de dizer” ou “faz aquilo que você gostaria de fazer“. Mas no fim do streaming, ele guarda o vidro em uma caixa e segue sua nova vida de merecimentos, bem melhor do que aqueles que pagam para ouvir seu discurso.

Assim, a mensagem que Aruan tenta passar ao quebrar sua placa é que, diferente dos outros, ele não se importa com o objeto em questão. Tentando passar a noção de que ele “não se vendeu ao sistema“. Mas é justamente o contrário: ele entende que está dentro do jogo e joga dentro das regras como qualquer um. Assim nasce mais um personagem entre milhares na prisão do entretenimento. Quebrar a placa é como colocar um óculos escuro e gritar palavrões contra um filme juvenil. É teatro. No fundo, quem odeia Crepúsculo sabe que o filme não tem nada de tão nocivo assim pra sociedade.

Aqui Aruan Felix se tornou o 25º canal que mais ganhou inscritos no mundo em dezembro de 2015. O ato de quebrar a placa é o mesmo de Bing ao colocar o vidro no pescoço: é um discurso que o “sistema” engole e transforma. Se é fácil transformar o amor de mãe e filho em um presente, porque seria difícil transformar palavrões em um show?

Black Mirror nos coloca em cheque. Afinal, da pra acreditar em todo discurso que vemos? É o holofote que cria o personagem? Bom, cabe a você decidir qual mentira vai acreditar.

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