E quando alguém que amamos vai embora?

Luto e pessimismo em After Life.

Luide
Luide
10 de abril de 2019

Eu não me lembro ao certo como foi meu período de luto após a morte do meu pai, em 2000, quando eu tinha 12 anos. 19 anos depois processar esse momento me causa uma certa estranheza, já que aos 32 anos de idade, vivi mais tempo sem o meu pai do que na presença dele. De todo modo, lembro de como isso impactou a minha mãe. Era a segunda vez que ela ficava viúva, como se fosse uma maldição, e aquilo abalou aquela mulher de uma forma poderosa.

Até hoje esse luto acompanha minha mãe. Quando minha filha nasceu, ela chorou por diversos motivos e um deles foi que “meu pai não estava vivo para conhecer a primeira neta” (ok, confesso que isso me fez chorar também). Criar dois filhos pequenos sendo faxineira de escola e ainda lidar com a falta do marido consumiu minha mãe. Me dói lembrar o quanto a vida foi cruel com ela. Nessas quase duas décadas ela procurou ajuda de psicólogos e psiquiatras e até hoje segue não sendo fácil.

Quando me separei vivi algo parecido, mas não com essa força desoladora. De repente tudo que eu amava havia me deixado e era difícil recobrar a consciência. O tempo, felizmente, é um remédio que pode funcionar para algumas pessoas. Pra minha mãe não resolveu, pra mim foi o bastante. Assistir After Life com essas cicatrizes me fez pensar nessa jornada de superação, no luto que precisa ser vivido e também nos traumas que carregamos quando alguém que amamos vai embora (e não se trata apenas de morte).

Escrita, dirigida e protagonizada pelo humorista britânico Ricky Gervais, a primeira cena de After Life é de uma mulher revelando que caso nós estivéssemos vendo aquele vídeo, é porque ela estaria morta. Trata-se de Lisa, mulher de Tony, que perdeu uma luta contra o câncer. Antes de deixar esse plano de existência, ela gravou uma série de vídeos para o marido apaixonado, incentivando ele a seguir em frente e ser feliz. Tony, obviamente, não ouve a esposa morta e se enterra em um luto que aos poucos vai se transformando em uma depressão profunda.

Sua apatia pela vida, pelas pessoas, por tudo, é o que dita sua rotina. Todo dia é um bom dia para morrer, mas e quando até mesmo a morte não importa? O desencanto pela vida domina After Life. É interessante que em seus primeiros capítulos (curtos, o que é ótimo) a série não tenta mudar o destino do personagem de forma transcendental. Em um determinado momento o personagem (que é jornalista) vai até a casa de um aposentado que também perdeu a esposa. Ali o velho da um sermão sobre seguir em frente depois do luto, mas aquilo em nada atinge Tony. O que valoriza a abordagem da série: para algumas pessoas é simplesmente difícil seguir em frente e palavras bonitas não ajudam.

É um pessimismo simpático. As coisas são difíceis, às vezes a gente não encontra saída e não temos motivos para seguir levantando da cama todas as manhãs. Mas é claro que não precisa ser assim pra sempre. O luto é um estado de respeito. É óbvio que iremos ficar tristes e desesperados por perdemos alguém que amamos. Não da pra levantar na manhã seguinte e achar que está tudo bem. Não está. É horrível. Tudo bem chorar, gritar, achar que nada mais faz sentido.

E Tony concorda com isso. Talvez o tempo o cure, talvez não. As coisas não são como a gente quer.

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