É a mistura de temas e tons que transforma Atlanta em uma obra tão especial

Versatilidade é o que resume Atlanta.

Luide
Luide
6 de Abril de 2018

É inegável que Atlanta seja hoje uma das produções mais inteligentes e experimentais na televisão. Donald Glover já havia provado logo na primeira temporada que não faria mais do mesmo e reforça essa ideia em sua segunda temporada, que ainda está em exibição. A série passeia por tons diferentes e explora diversos temas ao mesmo tempo que faz rir (com aquele típico humor desconfortável). E mesmo que essa história não tenha um fio condutor, é o próprio Glover na pele de Earn que segue roubando a cena.

O personagem é o exemplo claro do fracasso, seja ele fruto do próprio esforço ou de um sistema racista que marginaliza o negro periférico (não só em Atlanta, claro). Earn é descontente com ele mesmo e se sente o tempo todo jogado pra escanteio, como se a sorte fosse uma espécie de inimiga. É ai que entra um dos vários trunfos da série: nunca jogar com expectativas de que a qualquer momento algo incrível irá acontecer e Earn finalmente atingirá o sucesso absoluto. Sucesso, aliás, é o que todos buscam em Atlanta, mesmo que ninguém saiba direito o tipo de sucesso que almejam.

Donald Glover não parece muito interessado em amarrar seus episódios em sequências, e cria momentos isolados tão bem conduzidos que Atlanta se parece mais com pequenos momentos cotidianos dramatizados. A melhor sequência de episódios que ilustram esse diferencial são Money Bag Shawty (S02E03), Helen (S02E04) e Barbershop (S02E05).

São tão diferentes entre si, mas ao mesmo tempo tão iguais, que é impossível assistir Atlanta e não querer indicá-la para meio mundo.

Money Bag Shawty é certeiro em sua proposta e melhor ainda na execução. Earn em um pequeno momento de glória quer apenas dar uma noite de gala para sua ex-mulher e atual “relacionamento complicado”, e toda a trama gira em torno dele tentando comprar algo usando uma nota de 100 dólares. Já Helen segue o casal até alguma festividade alemã e trabalha de forma primorosa o distanciamento entre ambos. Por fim, Barbershop é um desses episódios que marcam temporadas e coloca Paper Boi na difícil missão de cortar o cabelo.

A versatilidade da série assusta. Seria muito fácil brincar com temas diferentes afim de disfarçar a incapacidade do autor de conduzir sua obra, mas em Atlanta tudo está dentro de um grande quadro. Tudo se mistura de um jeito estranho e delicioso. Glover jamais abandona o teor crítico e o tempo todo reforça alguns pontos que o mesmo vem martelando desde o primeiro episódio. A questão racial, óbvio, é a principal dela. O protagonista mal consegue trocar uma nota de 100 dólares…

Com poucos personagens, mas com um tratamento de primeira para cada um deles, Atlanta ruma parar mais uma temporada perfeita e passa longe de produções preguiçosas e feitas apenas para “entreter”. Essa série quer mais, assim como Earn e Paper Boi.

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