E dai que seu artista favorito não pensa como você?

Superado o fato que entretenimento nem sempre é só entretenimento, é preciso superar outra coisa: nem sempre você está alinhado ideologicamente com seu artista favorito.

Luide
Luide
16 de outubro de 2018

Quando adolescente existia uma pasta no meu desktop chamada “FOTOS BANDAS” onde organizava imagens das minhas bandas favoritas. Uma época onde meu cabelo era grande, eu andava de preto e ouvia coisas como OpethThe Black Dahlia Murder, Between the Buried and Me, System Of A Down e por ai vai. Minha devoção por esses caras era absurda e tentava acompanhar a carreira deles da melhor forma possível. Mas hoje, mais de uma década depois, percebo uma coisa: eu não fazia ideia do que a maioria dos meus artistas favoritos pensavam.

Suas músicas deixavam claras algumas ideias, mas eu, na minha juventude interiorana, estava mesmo era interessado no som. Era aquilo que me deixava em transe. O mesmo aconteceu quando séries de TV passaram a se tornar meu produto pop favorito. Foram anos consumindo todo tipo de obra sem nunca ler uma linha sequer sobre a biografia do autor. Portanto entendo perfeitamente quem ouve uma música ou assiste um filme e não se interessa pelo que seu criador luta ou deixa de lutar.

Claro que bons músicos, roteiristas e diretores imprimem suas visões sociais e políticas em suas obras. David Simon e The Wire é um exemplo perfeito. Ou o próprio Racionais MC’s, que segundo alguns youtubers não são cultura. A mensagem é clara e fica impossível fingir espanto quando Mano Brown se posiciona contra alguma classe política ou problema social. É isso que você espera.

Mas nem todos são tão objetivos assim em sua mensagem e muitas vezes produzem arte livres para interpretação. O ponto é que sim, é possível ouvir gostar de música, amar um filme e ao mesmo tempo discordar das posições do autor. Não existe nada de errado e isso sempre aconteceu. O que não pode existir, como já dito, é confusão. Esperar um posicionamento do criador que simplesmente não conversa com a criatura. O caso de Roger Waters se tornou mais um exemplo claro dessa falta de conhecimento daquilo que se diz gostar.

A raiz do problema é achar que entretenimento é puramente entretenimento e não agrega valor algum. Que um filme é só um filme e ponto final. Achar que Star Wars é simplesmente uma guerrinha de naves no espaço e ignorar todo o background político que George Lucas nunca fez questão de esconder. Esse desespero em descobrir que aquilo que você gosta nem sempre está alinhado as suas visões do mundo está mais em alto do que nunca, já que o mundo contemporâneo e a militância da internet exige que artistas se posicionem.

O próprio Roger Waters, durante uma entrevista ao Fantástico, reforçou que artistas, assim como qualquer indivíduo, podem e devem se posicionar: “Se vocês, meus fãs, acharam que músicos devem apenas tocar suas músicas… É obviamente apenas errado. Não, não devemos. Nós temos responsabilidade como políticos e também como músicos. Eu acredito que todos os artistas, não interessa qual tipo de arte você faça, todos têm responsabilidades de usar a arte para expressar ideias políticas e criar demandas em favor dos direitos humanos para todos“.

E isso vale inclusive para Kanye West, que de repente se transformou no maior vilão da América, simplesmente por apoiar Donald Trump.

É necessário entender que visões sobre política, religião ou temas sociais são diversas, e na maioria das vezes não irão se encaixar perfeitamente na sua. Se toda vez que algum artista disse algo que não condiz com seu ideal de mundo, sinto muito, você terá que torcer pro seu político favorito aprender a compor e cantar.

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