Dramatizar debates da internet foi a grande sacada do BBB20

Transformar a timeline do twitter em reality show tirou o BBB da mesmice.

Luide
Luide
5 de fevereiro de 2020

Nós, millennials, somos a geração de transição. Aquela que nasceu antes do atual boom tecnológico e viveu cada etapa importante de sua transformação. Fomos diretamente impactados por essa revolução, uma mudança que ainda nos afeta e afeta nossa relação com o mundo. Viver em sociedade se tornou, digamos, mais delicado. A gente passa muito tempo discutindo os vícios em celulares, o uso excessivo de internet e a exposição online de nossa intimidade.

Tudo bobagem. Em breve esse tipo de coisa não terá mais espaço e teremos que aceitar o óbvio: a ideia de privacidade está morta. É besteira. E com isso, vamos deixar de nos incomodar com vídeos sendo compartilhados no whatsapp de pessoas agonizando após serem atropeladas, da intimidade de um casal sendo exposta ou de alguém sendo “cancelado” porque disse algo ruim. No fundo, a tecnologia aguçou ainda mais um dos maiores fetiches do ser humano: o voyeurismo.

O BBB é um programa que nas devidas proporções passou pelo mesmo dilema ideológico que o millennial nessas últimas duas décadas. O fato é que ninguém mais se importa com pessoas trancadas em uma casa e sendo vigiadas 24hrs por dia. O interesse é pequeno porque, veja, tem milhões de pessoas fazendo isso o tempo todo em suas redes sociais. O story do instagram é o melhor exemplo disso.

Você acompanha a vida de um influencer. Ele se diz solitário. Você se sente triste por isso. Logo ele encontra uma namorada, e lá está você torcendo pelos dois. Um dia eles casam e você adorou a decoração da festa. Quando você menos percebe, estão com filhos. Até que vem o divórcio. E você viu tudo de perto, cada encontro amoroso, cada surpresa para a amada, o primeiro ultrassom, ouviu o coração do bebê junto com eles e ficou tenso no dia do parto. Você inclusive deixou de acreditar no amor quando eles se separaram.

É a democratização do reality show.

Todo mundo pode criar e compartilhar o seu. E o grande detalhe: você pode acompanhar não um, nem dois, mas vários assim. É por isso que BBB estava ficando um pouco distante, até que veio a edição número 20.

O que vem funcionando perfeitamente é como aquela casa encena todo tipo de coisa que a gente adora acompanhar na internet. Tudo acontece de forma roteirizada, uma dramatização do que vemos diariamente gerando debate em redes sociais. Mulheres contra homens, feminismo em debate, jogo sujo, a tal “masculinidade tóxica” e o grande personagem da vez: o “macho escroto”. Tudo que você gosta de passar horas e horas discutindo no twitter, só que dramatizado em uma série ruim da Netflix (que você assiste por osmose).

E é ai que os influencers fazem uma diferença: eles estão acostumados a encarnar o personagem que o público gosta todos os dias em seus perfis. Grande contribuição para a trama. Basta continuar a encenação lá dentro, jogar umas frases de efeito e pronto. Tudo certo. E por isso é tão bom, tão divertido.

Você tem a falsa impressão que aquilo é real e palpável já que vê isso o tempo todo na sua timeline. E acaba se entregando. Quem resolveu ler livro em 2020 está perdendo o melhor entretenimento do momento.

Seja assinante e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 03/06/2019

  • Luide

Que entrevista, que entrevistador e que entrevistado!

  • 30/04/2019

  • Luide

A vida pós-streaming

  • 05/12/2018

  • Luide

Sua nostalgia custa caro pra Netflix