Donald Glover quer te libertar

A mistura de cinema e videoclipe em Guava Island.

Luide
Luide
17 de abril de 2019

É um tanto normal que as vezes eu passe dois terços do meu dia trabalhando. Além do emprego formal, CLT e tudo, tenho meus conteúdos pra criar e gerir. Site, canal e podcast. Pra manter essa rotina sem que uma coisa atrapalhe a outra preciso abrir mão de algumas coisas em determinados dias da semana. E justamente por dedicar tanto tempo da minha vida é que me pego cada vez mais pensando na finalidade de tudo isso: será que se amanhã eu não sair da cama o mundo sentirá minha falta? Ou melhor: será que o que faço é importante para o mundo?

Deni, personagem de Donald Glover em Guava Island, acha que a sua arte pode sim mudar o mundo, já o seu trabalho é apenas uma forma de servidão. Nesse “média metragem” de cerca de uma hora, o ator, diretor, roteirista, músico e sabe-se Deus mais o que, mostra mais uma vez que é uma das grandes figuras da cultura pop nesse século. Tudo que tem o dedo de Glover é bom. Se não bastasse seu exercício de linguagem em Atlanta e seu já inesquecível clipe This Is America, agora é a vez desse cara fazer cinema. E dos bons.

Com direção de Hiro Murai, seu parceiro da série e do videclipe, Guava Island se passa em uma ilha imaginária, mas que não precisa de muita imaginação para mostrar do que se trata. A rápida associação com Cuba é normal, já que o país serviu de locação para as filmagens. Mas esse lugar paradisíaco pode ser qualquer país do chamado “terceiro mundo”: colonizado e explorado. Para viver é preciso trabalhar. E muito. Enquanto esse paraíso é um belíssimo cartão postal para turista, para os habitantes é apenas uma distração. É ai que Deni entra na história.

Ele que ser livre, mas uma liberdade coletiva. Para todos da ilha. E para isso usa sua arte como propósito, como arma de guerra. Sua jornada é exatamente essa: se tornar um símbolo, uma força invisível que entre na mente de cada um dos moradores de Guava. Donald Glover se mistura a sua própria obra: Deni é Earl de Atlanta versão “latina” e “This Is America” é refeita, dessa vez com operários de uma fábrica sob o mantra “qualquer lugar onde se precise tornar outra pessoa mais para ficar rico é a América“.

Deni está certo. Uma pessoa não pode mudar o mundo, mas uma ideia pode. Para a ilha e seus habitantes, a arte de Deni foi mais útil que seu trabalho robotizado. Quando todo mundo resolveu parar de trabalhar… nada mudou. As coisas continuaram. Salvar o mundo talvez não seja algo que você queira fazer. Não da pra pagar as contas com sonhos. Donald Glover não apenas sabe disso, como talvez está o tempo todo contando a mesma coisa em sua obra. Onde esse cara quer chegar? Pouco importa, apenas continue.

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