Dois Papas e uma missão

Fernando Meirelles, quase um relações públicas do Vaticano.

Luide
Luide
16 de janeiro de 2020

Duas de minhas memórias mais antigas da infância estão ligadas a Igreja Católica. E em ambas meu avô materno, falecido há mais de duas décadas, está presente. Na primeira, ele me leva até o local onde eram ministradas as aulas de catequese para que eu conhecesse um piano. Na outra, ele me leva pra missa de domingo, mas saio de lá antes do término. Por algum motivo, essas duas memórias sempre estiveram diante de mim quando o assunto é religiosidade.

Em um país como o Brasil (que logo deixará de ser uma maioria católica) nascer em um ambiente católico era o padrão. Meu rompimento com o catolicismo veio ainda na infância, quando as Testemunhas de Jeová entraram na vida de minha família. Desde então nunca mais pisei em uma igreja. É então que em dezembro de 2019 que um evento, que por pouco não se tornou trágico, me empurrou para a catedral de Salto do Itararé em um ato instintivo.

Em outro momento falo mais sobre esse episódio, mas nesse mesmo dia, ao sair da igreja, resolvi ir pra casa ver algum filme. E lá estava Dois Papas. Assisti e em determinado momento estava chorando. São coisas que não se explicam e estou pouco interessado em tentar entender. Mas o fato é que como filme, Dois Papas é bom. E é bom graças a escolha de Fernando Meirelles em contar a história desses dois personagens.

Entre outras coisas, o cinema é uma arte tão incrível justamente pela sua liberdade. Bergoglio e Bento XVI nunca se encontraram para debater o rumo da Igreja Católica. Mas colocar ambos para discutirem algo que de fato foi e ainda é discutido pelos corredores do Vaticano foi excelente decisão narrativa.

O conflito entre uma Igreja mais conservadora e outra mais progressista (no limite que uma igreja pode ser progressista) norteia Dois Papas: em todo mundo o catolicismo se enfraquece, perdendo espaço para os evangélicos. Para se ter uma ideia, em 1940 a porcentagem de brasileiros católicos era de 95%, hoje é menos de 50% e a projeção é que a partir de 2023 os evangélicos se tornem maioria absoluta.

Dois Papas age quase como um relações públicas do Vaticano: humaniza Bento XVI para aqueles que sempre o acharam rígido demais, e mostra que Francisco é um fervoroso ministro da obra de Deus. E mesmo que seja Francisco o principal alvo dos olhares de Meirelles, ganhando inclusive toda uma mini cinebiografia, é Anthony Hopkins quem rouba pra si o filme mostrando um papa fragilizado pelas suas escolhas e certo de que sua presença não é mais necessária para o futuro da instituição católica.

Ao final de Dois Papas, uma certa paz toma conta do coração. Ou pelo menos tomou do meu. Era o que eu precisava para aquele dia. Se a missão de Fernando Meirelles era transformar o lado burocrático e misterioso da Igreja em puro entretenimento ele conseguiu. Missão cumprida.

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