Depois de Mad Men, nunca mais olhei pra uma fotografia com os mesmos olhos

Tudo culpa do famoso episódio "The Wheel"

Luide
Luide
22 de fevereiro de 2016

Minha mãe guarda com ela uma mala cheia de velhas fotografias, e sempre que a família se reúne em alguma ocasião, alguém sempre corre pra pegar a tal mala. Então começa uma verdadeira viagem no tempo, um passeio por épocas distintas de nossas vidas. As reações são as mais variadas possíveis: felicidade em relembrar bons momentos cujo um único microsegundo ficou pra posteridade, ou então a tristeza de reencontrar pessoas que já partiram.

Com o tempo, o registro em foto meio que banalizou e passamos a valorizar mais as reações de terceiros na internet do que o momento em si. As fotos com camisetas velhas no domingo foram substituídas por quilos de filtros. De repente essa banalidade se torna regra e nós nos esquecemos das viagens que fazíamos.

Mas depois do episódio “The Wheel“, o último da irretocável primeira temporada de Mad Men, olhar uma fotografia pra mim passou a ter novamente um significado. Pra isso vamos detalhar umas mais brilhantes e emocionantes cenas da história da tv: a apresentação de Don Draper para a Kodak.

Para um lugar onde sabemos que somos amados…

Don é acima de tudo um publicitário e até o final da série essa mensagem fica mais do que clara. Sempre que um desafio pra sua carreira é lançado, Don vai buscar em suas próprias experiências uma solução. É o tipo de ação denunciada em Black Mirror, a capacidade de pegar nossos sentimentos e transformar em um produto, é a materialização e comercialização daquilo que amamos. Mas é o trabalho de Don e nesse episódio em especial, ele precisa vender uma nova campanha publicitária para um novo projetor de sliders da Kodak.

O Carrossel original foi apresentado pela Kodak em 1961, e como Matthew Weiner sempre gostou dessa brincadeira de encaixar produtos e situações reais da época dentro do contexto da série, ele preparou um ótimo terreno para sua primeira season finale em Mad Men. Weiner já havia feito isso com a Lucky Strike, onde em um momento de improviso, Don discursa sobre felicidade para falar sobre… cigarros. Mas aquelas palavras iriam parecer ditas por algum filósofo de boteco perto das que seriam ditas no final da série.

Don Draper, um homem atormentado pelo seus demônios (não me canso de dizer isso), mostrou ao longo da primeira temporada que está sempre fugindo. Uma fuga desesperada que ninguém e muito menos ele sabe o motivo ou para onde exatamente está indo. Don leva uma vida dupla, tripla, não importa, o fato é que sua personalidade acaba entrando em choque com aqueles que ele ama, e sua família sempre é o alvo de suas constantes mudanças.

A falta de diálogo com a esposa, a distância com os filhos e a ruptura com o irmão foram momentos cruciais para que Don transformasse todo essa enxurrada de sentimentos em um produto. Esse produto é o discurso final para convencer o pessoal da Kodak a fechar com sua agência.

Ted me disse que em grego a palavra Nostalgia significa a dor de uma velha ferida. É um aperto no coração mais poderoso do que a própria memória

O uso das palavras aqui é perfeito. Ao invocar um sentimento mais poderoso que a memória, Don transforma a nostalgia em uma espécie de poder mágico. E é através de um simples olhar para uma fotografia que tal poder vem a tona. E de fato é. Lembrar de pessoas que já se foram é algo que machuca,  mas quando essa lembrança torna-se física através de foto ou vídeo, a ferida é ainda mais profunda.

Por algum motivo você se lembra daquele exato momento, o suficiente para uma avalanche de lembranças te soterrar. Mas o discurso não acaba por ai:

Este aparelho não é uma nave espacial, mas uma máquina do tempo. Ele vai pra trás, para frente, e nos leva a lugares onde nos dói irmos de novo

E como dói… ao olhar uma foto da infância e perceber que aquela inocência já se foi, que os amigos tomaram rumos diferentes (ou alguns nem estão mais entre nós), sua dor em retornar aquele lugar é forte. É forte pois você sabe que é impossível aquilo voltar, então nos arrependemos de algo que deixou de ser feito, de palavras que não foram ditas (ou então foram ditas). É uma viagem onde você é apenas o espectador, essa máquina do tempo não permite contato ou mudanças, o que está feito está feito, e por isso essa revisita dói.

Isso não se chama roda. Se chama carrossel.
Ele nos faz viajar como crianças viajam.
Para lá e para cá e de volta para casa, para um lugar onde sabemos onde somos amados

Apesar de toda dor que uma simples fotografia pode causar, a sensação de conforto é gigantesca. Quando me sinto só, basta olhar uma foto da Camila, em minha casa, com meus gatos. É reconfortante visitar um lugar onde sei que sou amado e aceito. Também olho fotos de meus irmãos, de minha mãe, de meus amigos do interior… é um abraço, um aconchego que preciso naquele momento.

O discurso de Don Draper é falso e nós sabemos disso. Mas é assustadoramente real. Desde que vi esse episódio pela primeira vez, me emociono ao olhar para uma fotografia antiga ou reconfortado com algumas recentes. O fato é que Mad Men me ensinou alguma coisa, e é por isso tenho um apreço absurdo por essa obra.

Um apreço que procuro passar aqui no Amigos do Fórum. Quero compartilhar minhas memórias de Mad Men com vocês e juntos passarmos pela mesma experiência de um passeio no carrossel.

Na próxima vez que você estiver com sua família ou amigos e resolver abrir sua mala pessoal de fotografias, lembre-se do discurso desse cínico chamado Don Draper. É uma prova que a publicidade venceu, infelizmente, mas que são belas palavras, ô se são…

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