A cultura “anti-lacre” se tornou mais insuportável que a do próprio lacre

A obsessão em apontar todo avanço social na cultura pop transformou uma ala da internet na mais insuportável de todas.

Luide
Luide
17 de julho de 2018

A Netflix anunciou She-Ra: A Princesa do Poder, um remake do clássico dos anos 80, agora totalmente repaginada com o foco no público infanto juvenil. Não demorou muito para que adultos começassem seu discurso afetado que mais um desenho da sua infância infinita estava sendo destruído. Aquela ladainha de sempre, sustentada em um nostalgismo barato e que agora encontrou a desculpa perfeita para sua visão distorcida da coisa: se portar como o “anti-lacre” ou “anti-vitimismo” e outras bobagens que sempre vem acompanhada das palavras “mimimi” e “SJW”.

É um efeito colateral do chamado “lacre”, fenômeno que surgiu nas redes sociais que até hoje é um tanto controverso em sua origem e significado. Claro que essa afetação por RTs e compartilhamento fez muita gente perder a noção da realidade e partir para análises rasas e preguiçosas. Coisas como “jovens encontram machismo em Friends” são vazias e sem valor algum para o debate atual, mas rendem audiência.

Acontece que tanto “lacre” deu origem a um turba obcecada que passou a agir de forma tão descontrolada quanto aqueles que eles dizem combater. O problema está na cegueira que isso carrega, já que na mesma proporção que o tal lacrador usa de causas honestas para se promover, o anti-lacre invalida todas elas. Um filme que celebra a diversidade em seu elenco? É lacre. Diretora indicada ao Oscar? Lacre. Mulher trans recebendo um papel com relevância? Lacre.

É injusto jogar todo tipo de luta e avanços sociais no balaio do lacre. O que deveria servir de exemplo parar reflexão ou simplesmente comemoração é visto com uma tentativa mesquinha. Mas o anti-lacre não se contenta apenas em apontar o dedo e dizer o que é ou não uma conquista real. Ele persegue, expõe e promove boicote. The Last Of Us 2 sofreu com comentários homofóbicos quando revelou um simples beijo em seu trailer. Um beijo causou uma onda de retaliações por parte de uma audiência tóxica que viu algo tão doce como “lacre”.

Os lacradores não estão tomando conta da sua vida. A cultura pop ainda está cheia de homens musculosos, o problema é que agora minorias estão em evidência porque, veja só, eles também são consumidores. E mesmo que não fossem, não tem problema, o mundo é essa maluquice diversa onde até mesmo um adulto de 40 anos pode opinar sobre o visual de um desenho infantil.

O que não pode é agir como um descontrolado e seguir propagando preconceitos e ódio por simplesmente não admitir que Star Wars tenha uma protagonista mulher. Ainda bem que as coisas não são tão simples e estamos diante de uma revolução no que diz respeito a diversidade e enquanto o mundo avança, você pode estar se perdendo enquanto prepara mais um tweet mostrando que a Netflix só quer lacrar com Sense8.

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