A culpa também é minha

Democracia Em Vertigem, um documentário sobre um país em ruínas.

Luide
Luide
19 de junho de 2019

Se alguém me pedisse pra explicar o que são “direita” e “esquerda” em junho de 2013 é bem provável que eu jamais conseguiria formular uma resposta. Se até hoje sou um completo analfabeto político, em 2013 a coisa era ainda pior, mesmo assim, lá estava eu na Avenida Faria Lima em São Paulo ao lado de milhares de pessoas em um protesto. O grande erro ali naquele dia foi justamente minha falta de consciência política para perceber que aqueles gritos de “sem partido” e um movimento supostamente contra a política, seria uma das maiores rupturas do nosso sistema atual. E uma arma na mão de verdadeiros oportunistas.

Nem sempre temos consciência do momento histórico que vivemos ou se estamos nos portando da forma que daqui um tempo iremos nos orgulhar ou se arrepender. Sim, eu me arrependo de ter feito parte das manifestações de 2013. Foi um erro e quando vejo lunáticos no poder sinto que tenho uma parcela de culpa (não só por isso, mas por diversas posições nos últimos anos). Percebi que meu analfabetismo político é ouro na mão das pessoas certas. Quando mais nós acreditarmos no discurso “contra tudo que está aí”, mais seremos usados como massa de manobra.

E assistir Democracia Em Vertigem, documentário que estreou pela Netflix, me deixa com uma sensação ainda pior diante disso. Não que a abordagem bastante pessoal de Petra Costa tenha me tornado um fanático lulista, mas sim pelo sentimento de que ainda em 2019, as coisas parecem se encaminhar pra um abismo ainda mais profundo. Sou otimista em muita coisa, menos com meu próprio país.

A cronologia da obra mostra uma sucessão de fatos que começa com a construção de Brasília, passa pela ditadura, a redemocratização, a chegada de um operário ao poder, os escândalos de corrupção, as manifestações, o impechament, a radicalização do discurso e a prisão de Lula. Não existe em momento algum um sentimento de que estamos diante de uma solução.

Convém deixar claro ao leitor mais desavisado que Democracia Em Vertigem não se trata de um recorde jornalístico isento. Longe, muito longe disso. É um olhar de sua própria diretora diante dos fatos ocorridos. É como se eu ou você tivéssemos a oportunidade de contar as últimas décadas da política nacional a nossa maneira. Petra é uma mulher de esquerda, que aparece em imagens de arquivo próprio toda feliz votando em Lula em 2002 e cirandando na Avenida Paulista na eleição de Dilma. Esses dois ex-presidentes serão os personagens centrais de sua história, que se mistura com a história do Brasil.

É disso ai que nasce Democracia Em Vertigem. E por isso é tão bom. Não serve como um retrato fiel aos fatos, mas uma leitura bastante pertinente. E o que da ainda mais poder ao documentário são sucessivos eventos que fortalecem sua narrativa, como os vazamentos de conversas entre Sérgio Moro e procuradores da república. Tudo fica estranho, confuso, um tanto perverso.

Em determinado momento, uma faxineira do Palácio da Alvorada, pouco depois do impeachment de Dilma, diz que tudo aquilo não parece fruto da “vontade do povo“. Na verdade, nada que acontece nesse país parece ser.

Nesse momento é que meu analfabetismo político me diz: “a culpa também é sua“.

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