Culpa e inocência na ótima The Night Of

Série vai desconstruindo a imagem que temos de seu protagonista, mesmo sem definir uma solução

Luide
Luide
17 de agosto de 2016

Séries com busca de assassinos e investigações estão saturadas. Ao menos que tenha alguma proposta madura como nos casos de The Killing e True Detective, é quase insuportável assistir a mais uma obra sobre detetives ou serial killers geniais. E felizmente The Night Of não se enquadra nessas saídas fáceis, o que é de se esperar de uma série vinda da HBO. E os culpados são Richard Price, que foi roteirista de The Wire, e Steven Zaillian, diretor de todos os episódios.

Enquanto Richard Price da ao roteiro de The Night Of uma boa dose de realismo, mostrando que até mesmo um assassinato que parece tão óbvio tem seus desdobramentos na justiça, Steven Zaillian mantém um ritmo constante de incerteza no ar, deixando o espectador  em um ciclo de dúvidas: se Nasir é tão culpado assim, porque ainda não estamos convencidos?

E claro, The Night Of se aproveita disso para nos contar um pouco sobre o funcionamento da Justiça americana, e como não só um inocente se torna culpado, mas o inverso também acontece. A brincadeira na prisão de que todos ali são inocentes não é gratuita. O próprio Nasir ouve uma história semelhante a sua, de um assassino que ganhou liberdade mesmo com todas as provas escancarando sua culpa.

Mas se a justiça tem seu tempo, o mesmo não se pode dizer da vida, principalmente para aqueles que esperam que esse tempo chegue. Dentro da prisão a verdadeira história do protagonista vai sendo desenhada. É o grande trunfo narrativo de The Night Of, que vai desconstruindo o que tínhamos em mente sobre Nasir, mas ao mesmo tempo não nos permite criar uma imagem negativa. Ao raspar a cabeça, se tatuar e sentir um certo prazer em ser um protegido dentro da prisão, Nasir deixa transparecer alguma inclinação para o mal. Mas ao mesmo tempo parece apenas um adolescente bobo se revelando contra os pais e fazendo um corte punk na cabeça.

O mais importante é: como uma simples mudança visual nos leva questionar a integridade de alguém. Não é tão diferente do preconceito social velado. Ou vai dizer que você atravessa a rua a noite se um engravatado bem penteado vem em sua direção?

“O homem está na UTI e você dorme como um bebê. Você tem alguns segredos, não tem?”

A frase de Omar, digo, Freddy, é bastante inquietante. Será que esse garoto, o estereótipo do bom mocismo e símbolo de uma minoria reprimida da Nova York pós 11 de setembro, guarda mesmo segredos? Que segredos são esses? Nasir seria uma espécie de leão adormecido, que ao primeiro sinal de sangue, libera toda sua face carnívora?

The Night Of é bastante séria em sua abordagem. Sem vilanismo e muito menos heroísmo. Poucas vezes me senti tão instigado a saber de fato quem matou a tão comum “pobre vítima do primeiro episódio“.

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