A culpa é do Coringa?

A responsabilidade de um filme.

Luide
Luide
25 de setembro de 2019

As primeiras críticas de Coringa após sua exibição no Festival de Veneza eram as mais entusiasmadas possíveis. Com o filme levando o principal prêmio desse que é um dos festivais mais respeitados do meio (e novo termômetro pro Oscar), a euforia de quem aguarda por essa nova empreitada da DC subiu as alturas. Estamos diante de um novo clássico das adaptações de quadrinhos? Aparentemente sim, mas o que parecia ser uma unanimidade em opiniões logo mudou e as primeiras críticas negativas chegaram.

E chegaram batendo forte em uma tecla: Coringa de Todd Phillips pode ser um perigoso gatilho para o que definem como “terrorismo branco“, associando o protagonista com os chamados “incels“, termo da moda para designar adultos solitários com alguns inimigos em comum (mulheres, LGBTS, imigrantes). Uma parte do público resolveu focar nessas críticas e bater tanto nessa tecla (sem ao menos ver o filme) que a coisa tomou uma proporção gigantesca.

Joaquin Phoenix abandonou uma entrevista (mas depois voltou) ao ser questionado sobre a influência do personagem em nossos tempos, a Warner precisou emitir um comunicado lembrando a todos que se trata de… bem, um filme. Ou seja, estamos diante de mais um daqueles casos onde um pequeno barulho ganha uma atenção desproporcional até se tornar o assunto principal. Foi como daquela vez onde um único indivíduo resolveu não assistir Mad Max por conta da Furiosa e as manchetes diziam que “homens promovem boicote a novo Mad Max“.

O fato é que em meio disso vem uma questão: filmes, séries, games etc precisam carregar essa responsabilidade? Um filme sobre máfia precisa deixar claro que bandidos são bandidos para não “influenciar” ou “romantizar“? Uma game como GTA pode fazer com que adolescentes saiam atropelando Deus e o mundo assim que tirarem sua habilitação? Essa discussão é antiga e nunca se encontra um consenso, já que sim, filmes, séries, games, quadrinhos e todo tipo de arte tem sim influência em nossas vidas.

Cultura pop não é só entretenimento. Ela inspira, encoraja, da voz, mas será que é ela quem molda a sociedade ou a sociedade é quem molda a cultura?

Se um filme como Pantera Negra ajuda a empoderar a comunidade negra, um Coringa pode ativar gatilhos em pessoas problemáticas? Se você responder sim para ambas as perguntas, terá que estar disposto a lidar com reportagens que sempre associam violência a videogames ou pastores dizendo que hqs com temática LGBTs influenciam crianças. É uma via de mão dupla, que não pode ter impedimento de ambos os lados.

Se passarmos a pedir que filmes como Coringa não sejam feitos e distribuídos, teremos que lidar com campanhas de censuras como a que aconteceu na Bienal do Rio. É uma brecha perigosa que pode-se abrir. Obviamente não é um produto cultural que fará com que alguém tenha uma reação tão perversa diante do mundo que o cerca. É mais fácil culpar uma ficção do que buscar os verdadeiros sintomas. Da mesma forma que Pantera Negra por mais incrível que seja não mudará a realidade do racismo por si só.

O mais importante é se vigiar para não pedir a cabeça de diretores, roteiristas e demais criativos (como adoram fazer com José Padilha). É um tanto irresponsável jogar em suas mãos todo o descaso do Estado, a falta de uma estrutura familiar e  uma sociedade que cada vez mais contribui para crises e mais crises de saúde mental.

Fique atendo. O jogo pode virar contra você.

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