Cuidado com as memórias que você escolhe compartilhar com a internet

The Entire History of You de Black Mirror questiona sobre aquilo que escolhemos lembrar ou esquecer

Luide
Luide
9 de agosto de 2016

Dias desses fiz um post no facebook onde falei sobre essa nova fase de minha vida chamada paternidade. O que era pra ser um simples desabafo acabou se tornando um tópico de debate sobre as diferentes visões que a sociedade constrói de pais e mães. Nunca, em hipótese alguma, pensei em levantar esse tipo de discussão, a ideia era apenas compartilhar algo novo pra mim. É esse é um erro que estamos cometendo com muita frequência.

Quando resolvemos compartilhar algo na internet, devemos estar cientes do vigilantismo que se instalou e hoje é uma das principais frentes nas redes sociais. Depositamos uma quantidade absurda de memórias, seja através de 140 caracteres ou vídeos editados e sonorizados para o youtube. É fato que a qualquer momento alguém poderá resgatar essa memória e tirar alguma satisfação com você.

É um problema exclusivo de nossa geração, a última que viu a sociedade humana com e sem essa coisa chamada internet. E isso obviamente cria confusão na mente das pessoas, e o tempo todo nos pegamos debatendo os limites do uso da tecnologia e seus males (algo que deverá sumir quando minha filha por exemplo estiver com minha idade). Mas afinal, até que ponto é saudável mantermos gigabytes de memórias disponíveis para uso público?

The Entire History of You é um dos mais aclamados episódios de Black Mirror e o único, pasme, que não foi escrito por Charlie Brooker, criador da série. O episódio é considerado por muitos como o melhor roteiro em toda série, e teve os direitos de adaptação cinematográfica comprados por Robert Downey Jr. Entre os temas abordados, a questão da memória é o centro de tudo. Principalmente a problematização de torná-la acessível.

Temos essa noção de que memória funciona aos moldes de um computador, onde arquivos ficam registrados em determinados espaços que são acessados sempre que precisamos. Mas e se o que nós lembramos não passa de uma história inventada, que contada repetidas vezes em nossa mente, acabou se tornando a nossa versão dos fatos? O que você lembra daquele dia feliz pode não ser exatamente o que aconteceu.

Mas tão importante quanto o que você lembra, é o que esquece. Somos esse emaranhado de lembranças e esquecimentos, que aos poucos, vão se relacionando com o ambiente ao redor e construindo nossa personalidade. É aí que entra na discussão The Entire History of You, aquele que talvez seja o episódio de Black Mirror que mais flerte com a questão da tecnologia. E como tudo que diz respeito a essa obra, podemos ir longe ao relacionar com nosso cotidiano.

Trazendo novamente o caso Biel que teve sua carreira destruída, entre outras coisas, pela exposição de tweets antigos (alguns com mais de 6 anos), podemos traçar um novo paralelo com a série. Ao escolher transformar pensamentos em mensagens arquivadas em um site, o cantor deixou sua memória acessível para todos, e mesmo que 10 anos depois ele tenha mudado de ideia sobre determinado assunto, essas “memórias” ainda estarão disponíveis.

Ou o caso da judoca que ao ganhar a primeira medalha de ouro brasileira na Rio 2016, teve mensagens de 2012 resgatadas. É como se o que aconteceu fosse mais importante que o que está acontecendo.

Nossas memórias se tornaram públicas, e estão aí para serem acessadas por quem desejar

O que nos leva a um problema real sobre a questão do “compartilhar”. Ao clicar no botão update devemos estar cientes que estamos selecionando um pequeno momento de nossa vida, e entregando em uma bandeja para uma horda vigilante, que terá total noção de que não apenas pode, como também deve dar sua opinião sobre isso.

E como memória e realidade não caminham juntos, o que lembram de você pode não significar nada.

E note como isso vai se tornando um problema comum. Nada do que fiz na infância tem registro senão através da fotografia. Essas memórias eternizadas podem dizer uma ou duas coisas sobre minha personalidade na época, como o gosto pela moda, por exemplo. Mas uma criança de 8 anos que já usa facebook e youtube, poderá resgatar daqui 50 anos uma quantidade absurda de memórias de sua infância. Até que ponto isso é saudável ainda é cedo pra dizer. Como já dito, é um problema da nossa geração.

É claro que não significa deletar todas as redes sociais, mas é importante um questionamento sobre memória e esquecimento. Deixar o passado com o passado, e que ninguém além daqueles que lhe importam possa ter acesso e opinião sobre ele. Ou não. Black Mirror é essa coceira que não acaba.

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