A crueldade humana (e outras coisas) na série “Sou Um Assassino” da Netflix

Série documental da voz a condenados a pena de morte.

Luide
Luide
13 de agosto de 2018

São mais de 60 mil homicídios por ano, número que dá ao Brasil um incômodo lugar na lista de países mais violentos do mundo. Pessoas mortas durante um assalto ou mulheres arremessada pelo marido da sacada de um prédio. É assustador se imaginar no meio de uma guerra não declarada, onde a vida humana vale menos que um celular e aparentemente não há justiça o suficiente. A vida perdeu seu valor e o medo generalizado da população pode ser fator decisivo nas eleições 2018. Nunca a segurança pública esteve tão em pauta.

Você provavelmente conhece alguém que foi morto por outra pessoa. Meu tio por parte de pai foi baleado durante um baile após desavenças políticas. Morreu dias depois no hospital. Até hoje minha família lembra do ocorrido com dor e revolta, afinal de contas, para a maioria de nós a escolha de tirar a vida de alguém é algo impensável. Mesmo no mais profundo ódio, ninguém faria o mesmo com o autor do disparo. E é justamente essa aversão ao fato que nos faz sentir uma certa curiosidade com serial killers ou assassinos frios.

A indústria do entretenimento sabe muito bem disso e produz uma infinidade de filmes e séries sobre o tema. A Netflix praticamente vem se especializando no tema e vez ou outra surge em seu catálogo alguma série documental que trata de crimes não solucionados ou histórias que envolvem pessoas que tiraram a vida de outras pessoas. Começou brilhantemente com Making A Murderer e vem se expandindo e o lado positivo nessa história é que séries documentais é o ponto forte do serviço de streaming.

E outro acerto é Eu Sou Um Assassino, série em 10 episódios que conta a história não contada daqueles que estão no corredor da morte nos EUA. E não são poucos: desde que voltou em vigor no país na década de 1970, mais de 8 mil pessoas já foram condenadas a pena de morte. O que não falta, infelizmente, é material para criar uma estranha obra de entretenimento.

Infelizmente não porque essas pessoas não merecem pagar pelo que fizeram, longe disso. Se alguém é condenado à morte é porque outra pessoa já havia sido antes: todo assassino tem uma vítima. Mas Eu Sou Um Assassino tenta buscar uma narrativa diferente e um jeito menos clichê de contar a histórias dessas pessoas. Afinal de contas, ainda são pessoas e como todos nós, nasceram, tiveram pais e uma infância até que em algum momento tudo se perdeu. É uma série pesada e difícil de digerir, já que a sensação de estarmos diante de um problema bem maior é nítido e isso fica claro já no primeiro episódio.

James Robertson tem uma história curiosa. Cresceu sem o amor dos pais, que eram alcoólatras e usuários de drogas. Na adolescência passou a cometer pequenos delitos até que caiu nas mãos de um juiz que o condenou a 10 anos de prisão, isso poucos dias antes de completar 17 anos. A partir daí a vida de James foi por água abaixo: colecionando pequenas adições de pena, acabou caindo na solitária, onde passou 20 anos de sua vida. Em entrevista para a série, o próprio preso admite ter perdido o juízo durante essas duas décadas de confinamento. E a forma que ele descobriu de sair do isolamento terrível foi condenar a si mesmo para à pena de morte.

Como? Só assistindo.

Eu Sou Um Assassino é uma obra impossível de ver em maratonas. Confesso que fiquei meio tenso e exausto quando o primeiro acabou, afinal, como já dito, existem outras questões além da crueldade de tirar uma vida humana. Não dá pra entender o que James Robertson fez ou passou, mas dá pra tentar ouvir a sua história. E não é fácil.

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