Como não assistir Us

Perdi.

Luide
Luide
28 de março de 2019

Já nos primeiros minutos de Us me peguei olhando fixamente para a tela em busca de algo que estivesse escondido, passando despercebido por mim. Algum simbolismo, alegoria, algo que transcendesse aquilo que estava assistindo. “Hm… esses coelhos… os espelhos…“. Mas ao final do filme, ai sair da sessão, um certo sentimento de vazio tomou conta. O diretor de Get Out não me fez novamente “refletir sobre várias questões” e fui pra casa decepcionado. Dormi, acordei e de repente estava gostando muito de Us.

Passei a enxergar o novo trabalho de Jordan Peele como um filme de terror. A afetação de um homem branco querendo que um diretor negro me lembre dos horrores do racismo e da desigualdade social me fez assistir Us buscando uma crítica social, uma mensagem final que me faria postar no twittergente, como é ruim o racismo né! Vi Us e me peguei pensando nisso…“. Quase como um fetiche de gente privilegiada. Mas será que Peele não pode simplesmente… fazer um filme de terror? Um excelente filme de terror, por sinal.

Não estou dizendo que Us seja “só um filme”, até porque nunca acreditei nessa frase. O que me incomoda é a forma como eu, enquanto espectador, encarei a obra de Jordan Peele. É como se tudo precisasse ser alegórico e ao mesmo tempo ilustrativo, uma provocação com solução. 1 + 1 = 2. Essa busca desesperada por uma “explicação de Us” esvazia o produto ao invés de expandi-lo. É como se o filme não se sustentasse por si só, o que é uma mentira, já que mais uma vez Peele da sinais que é o maior nome em ascensão na cultura pop (se essa nova versão de The Twilight Zone funcionar, o cara irá decolar de vez).

É um filme bem dirigido, imaginativo, com possibilidades e sem muita preocupação com soluções de seu mundo. As coisas são assim e você simplesmente é levado a crer. Além do mais, aquele pézinho na comédia de Peele é muito bem utilizado aqui. A gente se acostumou tanto com piadas fora de hora e contexto que até se assusta quando alguém sabe o momento de encaixar uma sacadinha. O “Fuck The Police” do NWA sendo tocado durante um banho de sangue foi bom demais.

Foi assim que o filme se transformou pra mim: ao deixar de lado uma preocupação por não ter pego a “referência social” e me focar na obra executada, Us cresceu. Ganhou corpo. E só então as coisas começam a fluir, só então o debate e a busca pela simbologia começa a fazer sentido. Da mesma forma que Twin Peaks pra mim sempre foi e sempre será uma jornada, um confronto com o que David Lynch imagina e pouca disposição pra “entender”, o mesmo se faz valer com a obra de Jordan Peele.

Por mais que algum youtuber inteligente queria explicar o que assisti, o que precisa reinar é a experiência do primeiro contato, coisa que se perdeu graças uma afetação minha em particular.

No mais, a cultura pop precisava de Jordan Peele. E agora tem.

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