Com ou sem pausa, foi difícil assistir O Irlandês

A porta está próxima de se fechar.

Luide
Luide
2 de dezembro de 2019

Os créditos ainda subiam quando peguei o celular e fui direto pro twitter dizer o que estava sentindo ao final de O Irlandês. Estava um tanto melancólico, era sábado a tarde, o tempo nublado e tudo contribuía para que me sentisse assim. Foi estranho me deparar com um tuite resumindo o novo trabalho de Martin Scorsese como “filme de homens brancos“. Aquela não tinha sido a primeira mensagem do tipo e muito menos a última. Foi então que a melancolia deu lugar a um sentimento de tristeza, misturado com uma nostalgia: é, não foi só O Irlandês que acabou, talvez tenha sido toda uma abordagem temática.

Desde que Martin Scorsese começou a filmar suas histórias de máfia a sociedade mudou, e por consequência, a cultura pop também. De repente, filmes assim não são mais tão bem aceitos por uma parcela do público, que com um sentimento bastante digno, é claro, cobram por mais representatividade e menos “romantização” de certos comportamentos. Aprenderam a olhar para o cinema assim, não os culpo, afinal, até certo ponto, essa cobrança é sadia e ajuda a mudar alguns conceitos envelhecidos na grande indústria do entretenimento.

Mesmo assim, é uma pena que o cinema de máfia ou que narra histórias do tipo esteja chegando ao fim. Não porque essas pessoas ai de cima estão reclamando, nada disso, mas é quase um final esperado. É bem provável que uma série com The Sopranos sequer tivesse espaço hoje nessa guerra de streaming que se instalou.

Mas no caso de O Irlandês, a melancolia inicial se deve ao fato de que essa tenha sido a última vez que três lendas se encontram para trabalharem juntos: De Niro, Pesci e Scorsese. Uma parceria de longa data, que dessa vez, ganhou a companhia de Pacino. Que quarteto. E que filme. Que obra épica. 3:30hrs que poderiam ser 10, 20. Não importa. É tudo tão bom, tão bem filmado e atuado, que o tempo deixa de fazer sentido.

Pausar ou não o filme não tira dele seu brilhantismo. Não tira dele sua genialidade. E claro, como se tudo não fosse o suficiente, Martin Scorsese ainda transforma a última meia hora em uma verdadeira tortura. A última missão de Frank é cruel, mas a forma como ela é lhe imposta é ainda pior: Joe Pesci como Russell Bufalino é meu personagem favorito do filme, e como ele age para dizer o que Frank precisa fazer, mas sem dizer de fato, é muito, muito angustiante. Aliás, ver Pesci nesse tom, nesse equilíbrio… é pra te fazer aplaudir o filme no sofá de sua casa.

No fim, Frank faz o que deveria ser feito. Anos mais tarde, em uma das cenas mais incríveis do filme, ele está diante de agentes do FBI. Ali, sozinho, ele ainda mostra que é fiel. Fiel ao que? Pra esses homens não importam. Depois, procurando uma espécie de redenção no divino (que nem ele acredita ser possível), se vê finalmente sem ninguém. Todos já se foram, menos Frank. Todos já desistiram, menos Martin Scorsese. Acabou.

Não fechem a porta, por favor. Pelo menos, deixe um pouco aberta.

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