O choque entre moralidade e dever em The Americans

No fim das contas, é tudo sobre trabalho e família

Luide
Luide
5 de setembro de 2016

The Americans tem um tema bastante delicado. Se focasse apenas nas questões políticas envolvendo a Guerra Fria, é bem provável que o drama de Joe Weisberg não saísse da superficialidade. A questão aqui é como a série envolve a família dos protagonistas nesse jogo de poder, e como o tempo todo a moralidade de suas ações são postas a prova. Ao espectador cabe apenas observar, e até mesmo o julgamento de determinadas atitudes se torna uma tarefa complicada.

Tudo porque The Americans não escolhe lado, não flerta com o bem ou mal e deixa claro seus objetivos. É um drama excepcional e diferente de tudo que temos na televisão moderna. A trama que envolve espionagem, sabotagem, recrutamento, escutas, ameaças e afins, é bem equilibrada com questões de família, valores e fé. Um verdadeiro banquete aos mais ficionados em leitura de personagens.

A dupla de protagonista passeia pelos episódios. Não há um só momento em que Elizabeth e Philip não estejam destruindo em cena. São personagens riquíssimos, e o constante choque filosófico entre eles, sua missão e o lugar onde vivem, é o ponto alto em The Americans. O segundo ano vem forçar ainda mais desse confronto dos agentes da KGB em solo americano. Até que ponto uma ideologia é cravada em alguém a ponto de desumaniza-la totalmente.

O amor pelo país, pela causa, pelos seus iguais, transforma os agentes russos em verdadeiras máquinas sem sentimentos. Ou melhor, tenta transformar. Afinal, estamos falando de um casal que descobre o amor, tem filhos e caem na tentação do consumismo. É essa mistura que torna The Americans uma série que coloca a moralidade de tais atos ao extremo. Matar, mentir, trair, ser outra pessoa. Esquecer de quem é. Não ter desejos.

E mesmo com tudo isso, o casamento de Elizabeth e Philip não deixa de ser algo belo. Como ambos se esforçam para manter o relacionamento duradouro, e mesmo que você não seja um agente infiltrado, sabe que amor é algo que precisa de bases sólidas para seguir existindo.

E para balancear todas essas questões sobre nacionalismo e pátria, a figura do agente do FBI é precisa. O outro lado, ao mesmo tempo tão parecido. Beeman segue pelo mesmo caminho esburacado de seus rivais russos, onde o trabalho, por mais importante que seja, é um problema para o homem comum. Não importa se você é um simples professor de química ou um agente do governo, o vício no trabalho carrega uma dose auto-destrutiva.

The Americans lida com um turbilhão de questionamentos sobre seus personagens e entrega uma ação competente poucas vezes vista. É claro muitas séries se saem bem em filmar porradaria, como o caso de Banshee, mas aqui temos um cuidado ainda maior para não pender para a galhofa sem sentido. Até uma perseguição de carro se torna algo sufocante.

Família e Guerra Fria. Que banquete.

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