Carnaval: a eterna vergonha do brasileiro com sua cultura

Carnaval se trata de liberdade.

Luide
Luide
13 de fevereiro de 2018

Nenhum outro povo tem tanta vergonha da sua cultura quanto o brasileiro. Funk não presta. Sertanejo não presta. Carnaval não presta. Novela não presta. Nada presta. O que presta é aquilo consideramos imunes ao gosto popular. Dói saber que no fundo, o grosso da população não está nem aí para certos ritmos que você, no alto do seu gosto refinado, considera ser o melhor. O nosso país está longe de ser uma timeline do tumblr. Sabe aquele monte de gente suada se pegando atrás do bloco? Ou de mão levantada cantando aquele refrão sertanejo? Esse é o retrato daqui. Se acostume.

O carnaval é um momento ideal para demonstração de falso intelectualismo. A ideia de que não gostar de uma manifestação tão popular nos transforma em seres superiores ronda o imaginário de muitos, que dedicam preciosos momentos de suas vidas a criticar a folia alheia. O carnaval é uma realidade e não vai ter texto contrário que dê jeito. Ao longo dos meus 30 anos minha relação com essa festa teve altos e baixos, obviamente um reflexo do momento que vivia na época.

Quando moleque o carnaval me maravilhava. Passava a madrugada acordado tentando acompanhar o máximo possível de escolas de samba, ou então fazer o possível para simular uma folia carnavalesca nos confins do interior do Paraná. Lá por volta dos meus 28 anos, já sabendo que iria ser pai, passei a me isolar do carnaval, viajando contra a corrente e evitando o máximo possível de contato com essa data. O recém embarque na paternidade me fez sentir medo de certos prazeres, e por algum motivo, achava que gostar de uma festa tão associada a farra sem limites me faria menos maduro e menos pai.

Claro que eu estava errado. O carnaval, assim como qualquer outra manifestação popular, não pode ser resumido pelo ato de uns e outros, ou até mesmo pelo ato da maioria. Até hoje tem gente achando que o caipira realmente se veste como os personagens de uma quadrilha de São João. E tá tudo bem. O mesmo acontece com o carnaval. Esse ano resolvi que seria interessante sair pelas ruas de São Paulo e experimentar de perto essa nova onda que domina a cidade cinza, estigmatizada como aquela que odiava o carnaval. E foi incrível.


Foto: Vagner Medeiros/SMPR

O paulista e seus agregados (no qual eu me incluo) tem uma certa ansiedade no que diz respeito a ocupação de espaços público. É algo que cresce a cada ano, e isso vem refletindo muito no carnaval de rua. As pessoas querem estar em lugares que se tornaram exclusivos para carros. É um domínio daquilo que “não lhe pertence”. Quem vive nos grandes centros sabe o quão raro são momentos assim, onde a rua se torna mais do que um lugar para ficar preso no trânsito.

Lembrei do que o carnaval se trata. Se trata de liberdade. Da liberdade de poder se divertir até as consequências, ou de simplesmente ficar em casa assistindo alguma série. Liberdade de sair pelas ruas usando aquela roupa brega, mas também de se dedicar a uma escola de samba (tema que abordei no Rebobinando). E como ele sempre tem fim, nada melhor que publicar esse relato em um final de terça de carnaval.

Seja assinante e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 19/09/2018

  • Luide

Isenção conveniente: artistas precisam se posicionar politicamente?

  • 11/09/2018

  • Luide

É sua atenção que define quem vive ou morre na internet

  • 29/08/2018

  • Luide

Minha filha está viciada em Baby Shark