Black Mirror voltou não tão Black Mirror assim

Charlie Brooker está de volta com uma promessa: o mundo não pode se tornar a quarta temporada. E não pode mesmo.

Luide
Luide
31 de dezembro de 2017

Charlie Brooker sempre gostou de brincar sobre como Black Mirror, sem querer querendo, “previa” algumas situações do mundo real. A recente eleição de Donald Trump deu ainda mais gás pra essas comparações, graças a episódios como The Waldo Moment. Mas o criador e roteirista da série anda insistindo tanto nessa brincadeira que chego a pensar que sim, Black Mirror quer prever alguma coisa e corre sérios riscos de descambar pra uma série de piscadinha pro espectador “óh, tá vendo isso aqui? É muito Black Mirror né meo“.

Nessa próxima temporada, os episódios estarão bem distantes da possibilidade de se tornarem realidade, então eu não vejo isso como um problema. Mas se isso acontecer, o mundo está fodido… Bem, o mundo está realmente fodido, então… Veremos” disse Brooker em uma entrevista, mas espero que ele esteja completamente errado. Se o mundo ficar tão ruim quanto os dois primeiros episódios da quarta temporada, realmente estamos f*didos.

USS Callister (S04E01) e ArkAngel (S04E02) abrem essa temporada esperada por muitos, mas temida por outros. E os que temem tem razão, depois de um terceiro ano desastroso, fica difícil imaginar Black Mirror com aquele clima da primeira e segunda temporada. Não é afetação de hipster (“era melhor quando estava no Channel 4″… até porque era, mas enfim), mas Black Mirror precisou dar uma aliviada para o mercado americano e agora global da Netflix.

E assim foi. USS Callister pode ser bonitinho e até bem resolvido, se nos desprendermos da ideia que seja um episódio de Black Mirror. Com conceitos emprestados de outros episódios (uma mistura de The White Christmas com Playtest), USS Callister não levanta debates relevantes. Pode-se falar sobre como ele explora o comportamento de haters que dentro da sua bolha na internet são agressivos e passam um ar de poder, mas na vida real blá blá blá. A gente já viu isso diversas vezes. Inclusive dentro da própria série.

Mas até passa. USS Callister é desses episódios meio galera, com referência aqui ali e tal. Mas ArkAngel chega a ser ofensivo de tão pobre e ruim. Black Mirror resolveu falar sobre superproteção e vigilância da maneira mais burra possível, carregado de conceitos genéricos e obviedades. The Entire History of You (S01E03) já fez isso de maneira brilhante, e é até hoje um dos melhores episódios em toda a série.

Aqui parece que Charlie Brooker estava puto porque alguma criança quis brincar com seu action figure, ele não deixou, e a mãe veio tirar satisfação. “Vou expor esse mundo da superproteção materna na minha série, ela vai ver” e escreveu em 20 minutos o roteiro. O episódio todo é um erro. Até o final beira o patético. Black Mirror sempre tocou em feridas da forma mais indireta possível, ou com alegorias desconfortáveis como no caso de White Bear. Mas aqui parte pra abordagem direta: e se uma mãe pudesse controlar tudo que seus filhos assistem e consomem? Isso seria até perdoado se a trama “filha santa que se envolve com o zé droguinha” não tivesse sido a escolhida pra debater essa vigilância.

Um começo bem ruim para uma série que tanto me tirou da zona de conforto, e hoje só falta oferecer um travesseiro e guloseimas. Aqui no Amigos do Fórum cada episódio dessa temporada terá um texto próprio. Começamos essa maratona a partir do dia 08 de janeiro.

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