Assisti o documentário Laerte-se ao lado da minha mãe

E conversamos bastante sobre ele

Luide
Luide
21 de maio de 2017

É um domingo chuvoso e enquanto minha filha assiste Dora, converso com minha mãe sobre o documentário Laerte-se, que estreou na Netflix nesse último dia 19 de maio. “Tive medo que um dos meus filhos fosse gay… mais pelo preconceito que ele sofreria do que por outra coisa“, diz ela enquanto prepara o almoço. Resolvi convidá-la para assistir comigo e ver sua reação para depois conversar um pouco sobre o tema. Minha mãe completa 61 anos no dia seguinte, e nasceu e cresceu no interior do Paraná. Assim como a maioria esmagadora dos brasileiros, pouco ouve falar sobre gênero, homossexualidade e muito menos sobre pessoas trans.

O tema ainda é envolto em uma névoa de ignorância e falta de informação. O ativismo da internet pouco impacta fora dos grandes centros e bairros de classe média. De onde vim, uma cidadezinha de 3 mil habitantes, o “viado” ainda é um personagem quase folclórico. Os poucos que se assumem vivem sob o estigma de serem pessoas com algum tipo de doença mental, ou é simplesmente um depravado tentando chamar a atenção. Portanto, antes de explicar o básico para uma pessoa que ainda vive com uma mentalidade preconceituosa, é preciso mostrar que isso é tão natural e comum quanto se imagina. E não existe nada de errado.

Em 2004 a cartunista Laerte passou a se identificar como mulher. Desde então se veste como tal, e usa o gênero feminino para apresentar a si mesmo. Um pouco de sua história se tornou o primeiro documentário original Netflix no Brasil. Laerte-se é um olhar curioso sobre o processo de auto-descobrimento que ela passou, e principalmente, como se enxerga enquanto uma figura pública que de alguma forma se tornou a voz de muitos que estão em silêncio.

Laerte é uma pessoa insegura com seu trabalho, e longe das afetações que artistas do meio costumam ter. Simples, com uma vida simples, em uma casa simples, fazendo coisas simples. Foi justamente por isso que senti vontade de assistir ao lado de minha mãe: qual seria sua reação ao perceber que a maneira como Laerte se apresenta pouco importa? Que uma pessoa trans é como qualquer outra, cheia de medos, incertezas e muita conta pra pagar?

Ele se veste desse jeito porque ele quer, não é pra ninguém” foi a primeira observação que ela fez. Percebeu o básico em toda pessoa: nós somos o que precisamos ser para nós, mas nem sempre isso acontece. Laerte mesmo admite se arrepender de negar sua homossexualidade durante 40 anos, e como isso de alguma forma acabou afetando sua vida. Essa máscara que muitos são obrigados a vestir por medo de uma opressão gera, entre outras dezenas de problemas, uma propensão maior ao suicídio e depressão, tema que é muito debatido na internet nos últimos meses. Isso sem falar do abandono e da falta de oportunidade no mercado de trabalho. Enfim, resumindo pra você, porque alguém “se vestiria como mulher” sabendo de todas essas barreiras? Qual a vantagem?

Portanto, para que mais e mais pessoas possam ter coragem de se revelarem como são, é preciso que nós estejamos cientes da diversidade. Quem precisa de ajuda não é uma pessoa trans, mas sim que não aceita que ela possa existir. E se todos os belíssimos textos a respeito dessa conscientização não passam do primeiro pedágio da Castelo Branco, como a gente faz pra conversar sobre isso com nossos amigos e familiares? Simples: conversando. Com serenidade, com vontade também de ouvir o outro lado, e não correr pro twitter falando mal da “família conservadora”, ou vai parecer que você quer apenas RT, não um mundo livre para todas as pessoas.

Eu vou morrer e não vou entender o que se passa na cabeça dessas pessoas, mas vou sempre respeitar“, foi a última frase que minha mãe disse sobre Laerte-se. Bom, acho que no fundo, ela percebeu não é um bicho de sete cabeças.

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