Altered Carbon: a ressurreição como um produto de mercado

Out of the Past (S01E01) review.

Luide
Luide
4 de Fevereiro de 2018

Desde o momento que o ser humano entendeu a morte, passou a temê-la. O que vem depois? A religião da algumas respostas, a ciência só uma. De qualquer forma, a ideia de que um dia iremos deixar de existir é cruel, mas ao mesmo tempo belo. Sabendo de nossa mortalidade, podemos decidir como iremos aproveitar cada milésimo dessa nossa passagem. Se é que isso é uma passagem.

Todos esses momentos irão se perder no tempo como uma lágrima na chuva” lamentou Roy Batty em Blade Runner ao estar diante da morte. Para ele, a vida era mais do que um presente. Seu lamento é seguido por uma aceitação. Roy abraça a morte e suas memórias se vão… como uma lágrima na chuva. Mas se ao invés de uma benção, o fato de estar vivo fosse um fardo? E se fossemos impedidos de morrer? A ideia de eternidade é tão distante de nós, do mundo real, que se torna assustadora.

Aliás, se comprovado que a vida não vale tanto ao ponto de ser única, o que isso acarretaria em nossa sociedade? A religião deixaria de ser tão essencial? A fé em um criador deixaria de fazer sentido? O Estado deveria agir para conter a superpopulação? Aliás, existiriam leis que defenderiam o cidadão até mesmo no seu pós morte? Bom, pelo uso excessivo de interrogações, deu pra notar que esse é um campo aberto para uma boa série deitar e rolar. Mas não se engane. Não é o caso aqui.

Altered Carbon, a nova ficção científica da Netflix, coloca ressurreição nas prateleiras do mercado. E como qualquer produto em um mundo de privilégios, até mesmo voltar a vida teria seus problemas. É um ótimo tema para uma série, ambicioso o bastante para prender a atenção de qualquer fã do gênero, e com um caminho aberto para apontar o dedo para o nosso atual momento enquanto sociedade. Acontece que Altered Carbon só flerta com uma história madura. Seu desenvolvimento é o pior possível.

Out of the Past (S01E01) é uma bagunça colossal. Visualmente pobre, a série tenta impressionar o espectador com pouca bagagem, porque qualquer fã de ficção científica já cansou de ver os mesmos cenários e propostas de design em dezenas de filmes, quadrinhos ou animes. Pode-se argumentar que dentro do sub-gênero do Cyber Punk pouco se pode inventar, mas sejamos francos, é isso mesmo? Ser pouco imaginativo não é desculpa. Até mesmo Blade Runner 2049, sequência direta do clássico que definiu o cinema cyberpunk, não apelou pro lugar comum.

Mas tudo isso seria irrelevante se Altered Carbon oferecesse algo novo, ou simplesmente ousasse em sua proposta. Mas isso é fácil de se explicar, dado o retrospecto de sua showrunnerLaeta Kalogridis, que entre outras coisas, escreveu o desastre chamado Exterminador do Futuro: Gênesis. Mas ela não é a única culpada de um primeiro episódio onde absolutamente nada funciona. Até mesmo a direção de Miguel Sapochnik nos faz pensar se esse é o mesmo cara que dirigiu A Batalha dos Bastardos.

Altered Carbon é o tipo de ficção científica que atrai público, e a julgar pelas escolhas desse início de série, será mais uma obra baseada na violência e nudez, e deixando de lado temas importantes e aquele dedo na ferida que tanto gostamos. Pra não faltar aquela comparação básica, lembre-se do que Westworld fez em sua primeira temporada primorosa. Apesar da ação ser um elemento presente, a série da HBO brilhou ao tratar de temas como memórias e existência, algo que caberia facilmente em Altered Carbon. Mas fica pra escanteio.

Séries são produtos de autores. Ponto. Se o cara que criou e imaginou tudo não tem muito talento pro negócio, não importa quem é o elenco, não importa a plataforma e muito menos os U$ 7 milhões investidos em cada episódio. É difícil aceitar isso, mas nenhuma obra prima da TV é fruto do acaso. Mas valeu a tentativa. Com Black Mirror se afundando, cabe a segunda temporada de Westworld levar pra televisão a boa e velha ficção científica.

E lembre-se: existem outras maneiras de se tornar imortal.

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