Alguma coisa ainda funciona

O Brasil venceu em Cannes.

Luide
Luide
27 de maio de 2019

Não gosto da expressão “complexo de vira lata”, mas gosto muito menos de quem diz não existir um “complexo de vira lata”. O brasileiro se acostumou com pouco, afinal, pouco lhe é oferecido. A extrema maioria de nós certamente irá morrer sem deixar uma boa herança aos nossos filhos, iremos enfrentar as mesmas filas de hospitais, sentir a mesma insegurança ao sair nas ruas e o constante temor de perder o emprego e passar por momentos cruéis. Nosso “vira latismo” é justificável até certo ponto. Essa ideia romântica de que somos um povo sofredor é idiota. Ninguém deveria sofrer para ter coisas básicas. Ninguém.

Disso vem essa ideia que a grama do vizinho é mais fresca, que as coisas em outros países estão melhores. A vontade de abandonar tudo e ir buscar uma vida mais digna longe de casa. Se existe um vira latismo ele não é culpa sua. É culpa do Estado. Foi ele quem te fez acreditar que direitos são privilégios e o sofrimento é a regra. Então quando uma vez ou outra alguma coisa nossa, legítima, se mostra superior a de outros lugares, bate até um sentimento de confusão: “será que somos tão bons assim?”.

Bacurau, novo filme de Kléber Mendonça FilhoJuliano Dornelles levou o Prêmio do Juri no Festival de Cannes (Les Misérables também levou). Cannes não é um Oscar, prêmio de indústria. É um prêmio de cinema, de arte. Ok, é inocência acreditar que seja assim, 100% puro, mas é fato que Cannes importa e não é qualquer cineasta que consegue vencer por lá. O Brasil, por exemplo, tem raras vitórias no festival. O Prêmio do Juri (na linha hierárquica dos mais importantes do festival, seria o terceiro) é o primeiro que o país leva.

É uma vitória não apenas histórica, mas simbólica. No Brasil de 2019 onde o culto a ignorância e principalmente o ódio a cultura e a classe artística não apenas é tendência, como está no poder. Aqui odeiam músicos como Chico Buarque. Odeiam cineastas como Kléber Mendonça Filho, aquele que talvez seja o melhor diretor de sua geração, responsável por obras como O Som Ao Redor e Aquarius, filmes que talvez não sejam conhecidos por você e por aqueles que riem dos cortes em educação, mas lá fora são respeitados e dão força a imagem do Brasil. Um país sem cultura é praticamente impossível de existir, mas um país que odeia sua cultura… bom, esse tem nome.

Na semana que o grupo BTS levou milhares de adolescentes ao delírio em dois shows inéditos no Brasil, o G1 publicou uma matéria pra lá de interessante: o K-POP não é um fenômeno orgânico das massas, pelo contrário, teve apoio do Estado sul coreano que investiu pesado para vender esse ritmo mundo afora. O resultado é todo uma indústria construída e um país que lucra mais de 4 bilhões de dólares anuais com o turismo direto desses grupos. No Brasil ou você odeia funk, não suporta sertanejo ou tem horror a samba. Nosso cinema? “Ah, é tudo uma bosta“.

Cannes nos lembrou do contrário. Que bom que nossa arte não apenas existe, mas também resiste.

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