Álbum ou playlist?

Como você ouve música?

Luide
Luide
8 de agosto de 2019

A primeira vez que um amigo me apresentou o conceito de “gravar um CD” minha cabeça explodiu: eu poderia escolher as músicas que mais gostava e colocá-las todas em um único lugar, sem precisar ficar trocando de mídia ou esperando que elas tocassem em rádios. Foi lá por 2003 (no interior as coisas demoram pra acontecer) onde fiquei viciado em gravar “as melhores by Luide“. Era fantástico. Mas aquele hábito em ouvir playlists logo daria lugar a outra forma de consumir música: ouvir o álbum todo, sem pular faixas.

Finalmente havia internet em casa e baixar MP3 era meu esporte favorito lá por 2005. Mas tinha um problema: era uma internet discada, ou seja, em um dia ótimo, eram cerca de 4 horas para baixar um álbum completo de alguma banda. Todo aquela espera e esforço investido (não dava pra ficar navegando enquanto o download era feito) transformavam aquele novo álbum em uma obra especial e eu precisava ouvi-lo do começo ao fim. É como quando você trabalha duro pra comprar alguma coisa e usa até o fim.

Com isso, aos poucos, desenvolvi esse hábito e só ouvir a música se for o álbum completo do artista. Óbvio que isso é quando estou ouvindo na minha privacidade, em festas e reuniões a música é apenas plano de fundo. Mas a caminho do trabalho ou enquanto limbo casa (momentos que onde música e podcast dividem minha atenção) o normal é escolher um artista, escolher um álbum e ouvir do começo ao fim, sem pular faixas ou repetir a canção favorita.

Serviços de streaming como o Spotify favorecem ainda mais o consumo imediatista de artistas, já que agora existe uma espécie de ranking de mais ouvidos, como o Em Alta do Youtube, e para estar sempre em evidência, o uso lançamentos de singles contantes faz com que o artista foque boa parte do seu trabalho nisso (o aumento de collabs também é um sintoma: uma tática para subir no algoritmo). Assim, é comum que muitas pessoas passem a consumir músicas em playlists, escolhendo as melhores e colocando tudo em um só lugar. Não acho isso que seja um erro, é apenas uma forma de encarar a arte.

Mas sigo insistindo no velho hábito que adquiri na época dos 52kbps de velocidade na discada: entender que uma música é parte de um um trabalho mais complexo que só pode ser entendido dentro da sua totalidade, ou seja, ouvindo todo o álbum. Recentemente no Rebobinando, ao lado de dois convidados, nos debruçamos em entender as canções Vida Loka parte I e II. Ambas as músicas estão no álbum Nada Como Um Dia Após o Outro e são um belo exemplo de como uma narrativa percorre todas as faixas, do início ao fim, e portanto, devem ser ouvidas na forma como foram concebidas e encaixas no produto final.

Assim, ambas as canções que por si só são belíssimas, acabam ganhando ainda mais complexidade e expansão de ideias. É assim com qualquer boa música. Mas hábitos são hábitos e em se tratando de música, assim como leitura ou cinema, não existe um ruim ou errado. O importante é consumir.

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