Ainda é cedo demais para ela entender

Mas não é tarde demais pra mim.

Luide
Luide
24 de outubro de 2018

Os olhos fixos da Alice na televisão me fez esquecer por alguns minutos da crueldade lá de fora. Eu havia acabado de dar play em Divertida Mente, um dos meus filmes favoritos da Pixar, e que obviamente irei assistir muitas vezes com ela. Mas seus olhos prestavam atenção nas cores vibrantes da animação, ainda é cedo demais para ela entender a poderosa mensagem desse filme. Mas não é tarde demais pra mim.

Há alguns anos a ideia de que homem não chora ou não sofre foi desaparecendo da minha cabeça. Quando a Alice nasceu em 2016 tudo ficou sob uma nova perspectiva. Agora, mais do que nunca, eu deveria chorar e saber lidar com cada emoção dentro da minha cabeça. As coisas não eram mais sobre mim, mas sobre ela. Ela e eu. E será assim até o fim dos meus dias. Quando se entende isso você se permite sofrer. E isso fica claro em Divertida Mente.

A busca pela felicidade constante é reforçada em filmes, em novelas, redes sociais e na publicidade. É como se picos de serotonina fossem a força motora do nosso corpo e não podemos nos permitir ter momentos onde as coisas simplesmente não acontecem. Onde você admite que dói e precisa lidar com essa dor. Não existem motivos para evitar esse momento. É o primeiro passo.

A Alegria achava que um sorriso eterno seria o melhor remédio para Riley e que a Tristeza era a maior inimiga. Mas não é bem assim. Enquanto a Tristeza era evitada, a Riley sofria. Sofria porque não podia lidar com o problema, não falava sobre ele, interiorizava aquele turbilhão de sentimentos e com isso, não conseguia encará-los de frente. O choro ao abraçar os pais é esse momento de confronto. É quando ela, ainda jovem, percebe que só identificamos momentos de felicidade quando conhecemos o outro lado.

Identificar a dor ao invés de fingir que ela não existe, enfrentar ao invés de recuar, absorver e tentar evoluir ao invés de se entregar. Essa é uma luta tão antiga quanto a existência. Alice ainda é pequena demais pra se preocupar com essa mensagem, mas um dia ela terá que lidar com isso. Assim como todos nós precisamos. Assim como o pai dela precisa.

Não é vergonhoso ou sinal de fraqueza. Ser forte como um muro é mais um delírio do que uma qualidade. Nem sempre você irá suportar tudo e deixar que esse muro desabe talvez te ajude a se reconstruir. Ainda mais forte. E pronto para ser destruído novamente. A Tristeza sabia desde o início que aquele respiro de alívio que vem após o choro era fundamental para que Riley pudesse se reconstruir. Que ela entendesse onde estava o problema e com isso, seguir.

E as coisas seguem. A beleza da vida é isso. Ela não para. E eu entendo. Mas pra Alice, as cores de um desenho ainda são mais chamativas.

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