(500) Dias de Um Frustrado com uma Egoísta

Um filme sobre dois adultos mimados

Luide
Luide
26 de setembro de 2016

Só porque uma garota bonita gosta das suas bizarrices não quer dizer que ela é ‘aquela’“, diz Rachel a Tom, seu irmão mais velho, demonstrando uma maturidade que infelizmente o protagonista de (500) Dias Com Ela está longe de ter. A frase pode soar como ironia ou piada, mas faz bastante sentido quando aplicada a Tom em um filme que basicamente narra a história de um frustrado e uma egoísta.

Tom Hansen é o típico frustrado que não consegue amadurecer, e vive um verdadeiro ritual de passagem entre a adolescência tardia e a vida adulta. Ele não consegue abrir mão de suas convenções juvenis sobre relacionamento, e sua visão de amor ainda é fortemente influenciada por aquela romanceada em filmes e músicas. Por isso a frase de sua irmã é tão verdadeira, afinal, na cabeça de Tom, o amor é isso: andar de mãozinha dadas enquanto compartilha o fone de ouvido ao som de The Smiths.

É o tipo de imaginário comum bastante discutido em How I Met Your Mother, onde nosso querido Ted Mosby vive algo parecido, a ideia de que o universo lhe deve uma mulher perfeita, linda e com gostos similares, afinal, ele é “gente boa“. Mas sendo justo, (500) Dias Com Ela trata na verdade de dois esterótipos bastante comuns hoje em dia: o já citado frustrado, que só encontra felicidade em outra pessoa, e a egoísta que só pensa na sua felicidade. Tom é o homem que não consegue se resolver consigo mesmo e despeja em outra pessoas seus medos e incertezas. Já Summer é a mulher cujo senso de liberdade é baseado no quão independente emocionalmente ela é, não importando o quão ácido esse tipo de comportamento pode ser para outras pessoas.

Ou seja, enquanto um só enxerga felicidade em uma vida a dois, a outra não enxerga além de seu umbigo. É claro que ambas as visões estão equivocadas e é bastante interessante como o filme expõe essas diferenças. Mas por algum motivo, a Summer saiu errada nessa história, ganhando os mais diversos apelidos carinhosos da internet, enquanto Tom é o “homem raro“, “romântico a moda antiga” e “difícil de se encontrar hoje em dia“. A verdade é que ambos são pessoas com ideias completamente erradas sobre o amor.

Voltando a frase de Rachel, não apenas Tom, mas uma infinidade de homens desde a adolescência criam essa imagem da mulher perfeita ou do relacionamento ideal. O que uma mulher precisa ter para eu amá-la? A pessoa passa então a atribuir qualidades que ela julga necessária para um ser humano, por isso, vive em função da expectativa. E como na vida real algo que vive sendo quebrado é essa tal de expectativa, a frustração passa a ser a maior companhia desses homens durante a vida.

Mesmo que Summer seja linda, tenha uma pintinha fofa e bom gosto musical, ela nunca será perfeita aos olhos de Tom, afinal, ele já a desenhou em sua mente antes de conhecê-la. Sua visão de Summer é intocável e imutável, e na primeira oportunidade, o choque entre a Summer real e a Summer do Tom resultará em decepção. É por isso que a frase “não é só porque vocês tem gostos em comum signifique que isso é amor” deveria ser levada bastante a sério. Admiração é diferente de amor.

Tom é o cara desesperado por esse sentimento, e carrega consigo a ideia de que ele, mais do que ninguém, merece ser amado. Afinal, é o que todos dizem a ele. Já Summer é a terrível imagem da mulher independente, que tanto assusta alguns homens. Basicamente, somos criados a enxergar a mulher como uma donzela em seu quarto esperando o príncipe perfeito (é assim que Tom vê a si mesmo). Então quando uma mulher diz que não precisa de ninguém para ser feliz, isso choca. Causa estranheza. E é bem comum o espectador escolher um lado nessa história, no caso, o de Tom.

Parece que Tom faz tudo certo e Summer não entende seu amor. Porém existem dois pontos aqui. O primeiro é que Summer tem todo o direito a não amá-lo, segundo, o que ela faz em certo ponto é puro egoísmo. Por pensar tanto em si mesmo, ela acaba se esquecendo que está se relacionando com seres humanos, não com pedras. Tudo bem ela ter esse senso de liberdade, mas isso não significa que todos terão. Somos fadados a procurar abrigos nos outros. Criar laços com outras pessoas é comum, seja de amizade, seja de paixão e, no melhor dos casos, no amor.

Mas Summer parece não se importar. É óbvio que convidar alguém que claramente é apaixonado por você para o seu noivado é mau caratismo. É não ter a mínima noção de empatia. Mesmo que Tom seja um completo dependente sentimental, o mínimo de respeito praticado evitaria de expô-lo a um momento doloroso como esse. A Summer tem responsabilidades sobre ele? Mais ou menos. Querendo ou não, eles tiveram um relacionamento, e por mais que essa mentalidade de liberdade compulsiva a levasse a crer que não, existiu algo ali. Pequeno ou grande, verdadeiro ou falso, mas existiu.

Em um espaço de 500 dias ela se relacionou com Tom, se apaixonou por outro e casou. Em um espaço de 500 dias, Tom se apaixonou por Summer, se decepcionou e termina o filme procurando novamente outra relação perfeita (óh, ela gosta dos mesmos prédios que eu). Se isso não é desespero eu não sei o que é. Amor não é viagem, não é roupa, não é filme muito menos texto de comediante querendo vender ingresso pro seu filme. É o mais puro, poderoso e antigo sentimento humano (sem amor nós somos meros mamíferos).

(500) Dias Com Ela mostra o quão perdidos nós estamos. Somos adultos mimados, carentes e frustrados, procurando desculpas e afago. Não aceitamos diferenças e no primeiro choque de realidade, o tal do relacionamento perfeito se vai, o casamento as pressas acaba em divórcio. E na conta de quem colocam esses fracassos? Na do amor, claro.

Summer e Tom, na boa, cresçam.

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