O deus de Westworld e o caminho rumo ao Labirinto

The Well-Tempered Clavier (S01E09) é um episódio pra todo mundo

Luide
Luide
30 de novembro de 2016

“Os humanos são solitários neste mundo por uma razão. Matamos e massacramos tudo que desafiava nossa primazia. Sabe o que aconteceu aos Neandertais? Nós os comemos. Destruímos e subjugamos nosso mundo. E quando não havia mais criaturas para dominar… construímos este lindo lugar”Dr. Robert Ford

Resta apenas um episódio para o fim da primeira temporada de Westworld, mas nessa altura já é possível dizer com certeza que presenciamos o nascimento de uma futura obra prima da televisão. Lisa Joy e Jonathan Nolan foram impecáveis até aqui, e se todas as respostas não vierem, tudo bem, temos uma série tão rica em metáforas, temas e ideias, que caso alguma coisa ou outra fique sem solução, monólogos como esse que abre o post fazem valer qualquer “revelação” ou “plot-twist“.

Mas The Well-Tempered Clavier (S01E09) foi, assim como seus antecessores, um episódio que agrada a ambos os tipos de audiência: aqueles sedentos por respostas e aqueles que apreciam cada linha de diálogo de Westworld. Mas enquanto certas teorias se confirmam, e outras dúvidas se esclarecem, o debate sobre deus e criação se intensifica. Dessa vez tivemos Bernard experimentando por alguns segundos a dádiva da consciência, que nós humanos sabemos muito bem do que é capaz.

Ford se porta como um criador generoso e bondoso, que poupou os Anfitriões da dor da consciência e do livre-arbítrio. Para ele, a paz se encontra na ignorância. As consequências da liberdade são terríveis, por isso, como um bom “deus”, Ford fez esse ato generoso, enquanto Arnold queria dar a eles a chance de vivenciarem sua existência por completo. Aliás, há uma cena bastante perturbadora nesse episódio, no momento em que Dolores entra na igreja e vê vários Anfitriões confusos, questionando tudo ao seu redor.

Afinal, esse tipo de descoberta não deve ser digerida tão facilmente. O choque que isso pode causar, o sofrimento, já foi descrito a milênios por Platão na sua alegoria da caverna. O que me faz acreditar cada vez mais que o Labirinto é esse encontro dos Anfitriões com a consciência, não um lugar físico que o Homem de Preto tanto quer encontrar. Foi o caminho deixado por Arnold para que suas criações pudessem encontrar a verdadeira existência. Um caminho rumo a verdade, um caminho que todos nós tentamos encontrar diariamente.

 The Well-Tempered Clavier (S01E09)

Se Ford é quem impede os Anfitriões de encontrarem tal verdade, aqui nós também temos agentes externos nos cegando diariamente, nos prendendo em rotinas, nos programando a seguir um estilo de vida, para passarmos por ela agindo como robôs, dizendo frases prontas, nos relacionando como seres mecânicos. Westworld não seria tão inteligente se não pudesse servir como analogia a nós mesmos. Desde o primeiro episódio até aqui, temos o mais perfeito ensaio sobre humanidade.

Nossa busca pelo Labirinto também é intensa. O lugar onde nossas perguntas teriam respostas, e a verdade esclarecida. Mas nem todos nós chegaremos até o fim e descobriremos o que existe além daquilo que nossa programação permite ver. Que venha o final da primeira temporada de Westworld.

 

Posts Relacionados
  • 03/05/2017

  • Luide

Deuses Americanos, do “mesmo cara que fez Hannibal”, começou bem

  • 27/04/2017

  • Luide

É impossível ser Nora Durst.

  • 26/04/2017

  • Luide

É inevitável que Mike roube a cena em Better Call Saul. Por enquanto