Aqueles que tem o direito a Westworld

The Bicameral Mind (S01E10) e o fim de uma temporada perfeita

Luide
Luide
7 de dezembro de 2016

Se existia algum medo que Westworld se transformasse em um novo “LOST” ou que Jonathan Nolan e Lisa Joy privassem o público das respostas as tantas questões levantadas durante a primeira temporada, The Bicameral Mind (S01E10) afasta pra longe qualquer indício de estarmos diante de um balão sem gás. Beethoven virou música e Westworld virou história. A televisão ainda é o palco de grandes realizações. Ainda bem.

Uma história construída com calma, onde os mais ansiosos provavelmente pularam do barco. Westworld foi um ciclo, assim como a concepção da consciência criada por Arnold. Viajou pelo tempo, deixou pistas pelo caminho e voltou para busca-las. O grande final não foi a revelação dos planos de Dr. Ford, mas um processo de auto-aceitação por parte dos Anfitriões. Eles finalmente assumiram sua existência e nenhuma filosofia ou ciência humana pode provar que suas sensações não são reais. O parque finalmente foi devolvido aos seus merecedores.

A excelência da série vem de três pontos que se cruzaram durante toda a trama. A primeira de um terreno imaginativo bastante fértil, com uma concepção de mundo e regras bastante claras e bem estabelecidas. Jonathan Nolan faz isso de uma maneira certeira ao dosar as informações que o público precisa saber. Como por exemplo, o que são os devaneios, como funciona as quests do parque, a hierarquia e assim por diante.O segundo item é o mistério por trás de tudo isso. Mesmo nos mostrando o necessário a cada episódio, o anseio por mais e mais é crucial para prender o espectador. E por último e mais importante, seu belíssimo ensaio sobre existir.

A ficção científica nunca se propôs a ser uma espécie de vidente da tecnologia ou do futuro. Melhor, foi um exercício artístico de falar sobre o presente. Sendo assim, Westworld é crucial para que nós deixemos de lado o choque pelos eventos da série, e voltemos os olhos para nós mesmos. Afinal, ainda buscamos pela vida e suas respostas como os Anfitriões?

Ora, é fácil se transformar em um ser mecânico e rotineiro. Basta que desviemos por alguns segundos o olhar daquilo que realmente importa, e logo estaremos no piloto automático, aceitando ordens e sendo escravos do entretenimento. Esse despertar da consciência é necessário para nos lembrar daquilo que realmente nos torna humanos. Claro que Westworld não é a primeira a tratar dessa perca de humanidade, clássicos do cinema e da literatura sempre debateram essa questão. Um belíssimo exemplo é Blade Runner.

O desespero dos Replicantes para conseguir entender sua própria existência e tempo é algo compartilhado com os Anfitriões. Dolores viveu essa tragédia desde os primeiros segundos de Westworld: como se reconhecer como indivíduo em meio a tantas correntes? (ideológicas, culturais, sociais, políticas, morais). É difícil, Dolores, nós seres humanos até hoje não sabemos como nos livrar de tantos agentes externos influenciando nosso dia-a-dia.

Mas como já dito, um dos pilares de Westworld foi a criação do mistério e elevação da expectativa. Isso acaba criando não apenas razões para seguir com a série, como também uma grande base de fãs, que formam comunidades e enriquecem o debate sobre aquilo que é visto. Sendo assim, não ficou difícil que as decisões finais de  Jonathan Nolan e Lisa Joy fossem “previstas” em algumas teorias que no fim, se mostraram corretas.

 The Bicameral Mind (S01E10)

As diferentes linhas temporais, o Homem de Preto e William, o incidente no parque envolvendo Arnold, as reais intenções de Ford. Todas devidamente entregues. Mas claro, Westworld não será lembrada por isso. Fazer plot-twists, desculpe a arrogância, não é tão difícil hoje em dia perante uma audiência viciada. Os aplausos para Jonathan Nolan e Lisa Joy são merecidos, mas por outras razões.

Westworld foi um banho filosófico acessível ao grande público. E isso é algo de uma importância enorme. Se junta a outras obras da atualidade que se propõe a dar ao espectador algo além do entretenimento puro e barato (nem sempre tão barato). Foi um espetáculo, uma apresentação de gala. Foi a grande série de 2016.

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