Westworld começa questionando nosso senso de existência

The Original (S01E01) começa jogando na nossa cara um turbilhão de questionamentos

Luide
Luide
3 de outubro de 2016

Em algum momento de The Original, episódio de estréia de Westworld, Dr. Ford (personagem vivido por Anthony Hopkins) diz algo sobre vencermos a seleção natural. O Homem evoluiu demais e agora pode, até certo ponto, controlar a morte. Não morremos mais por doenças simples, desenvolvemos agricultura, construímos casas que suportam tempestades e sobrevivemos aos mais variados tipos de clima. Do gelo sem fim ao norte, ao calor insuportável do deserto, nossa espécie se adaptou, criou e seguiu em frente. Porém mais do que um puro instinto de sobrevivência, o ser humano gosta de estar vivo. De se sentir vivo. De existir.

É essa noção simples que nos separa de uma árvore. Ela pode respirar, produzir seu próprio alimento, mas segue sem saber que é uma árvore. Nós não. Sabemos quem somos, mas viveremos eternamente procurando de onde viemos. É por isso que evoluímos. Queremos mais, saber mais, viver mais. Nenhuma outra forma de existência tem tanta convicção disso quanto nós. Por enquanto…

Em 2015 Ex-Machina trouxe novamente a tona o tão debatido tema da inteligência artificial. Porém a questão levantada é praticamente a mesma em Westworld: o que acontecerá quando uma inteligência artificial ter a noção de sua existência? Se o sistema operacional do seu celular soubesse que é um sistema operacional, ele se voltaria contra você? Simplesmente sumiria? Iria lutar por liberdade? Westworld de Jonathan Nolan e Lisa Joy Nolan trás essa pauta para a televisão.

Em um primeiro episódio (que assusta de tão bom), Westworld nos apresenta esse mundo ficcional onde seres humanos podem embarcar em uma experiência real no Velho Oeste americano, com direito a todos os clichês do gênero. Em um cenário virtual e com robôs contracenando, ricaços podem se tornar vaqueiros, heróis ou vilões. Depende, claro, do que sua mentalidade perturbada irá fazer em um mundo sem regras ou punições. The Original (S01E01) é o típico sci-fi questionador. Nos mostra um futuro que assusta em um primeiro contato, mas ao mesmo tempo nos lembra que já o estamos vivendo.

A começar pela ideia de um lugar onde o sadismo e voyeurismo nosso de cada dia é materializado. Você não precisa mais de um game violento pra se colocar no lugar de um bandido, e muito menos visitar um zoológico. Em Westworld você pode ser livre para ser aquilo que essa sociedade cruel te impede de ser. O ser humano nada mais é que um animal cheio de regras. Tudo que o dinheiro pode nos proporcionar, claro.

Ao mesmo tempo que expõe o desespero em busca de prazer e grandes corporações dispostas a oferecer isso, Westworld entra no campo filosófico de discutir o que significa existir, e acerta em cheio a relacionar a memória como base disso. No livro 2001: Uma Odisseia No Espaço de Arthur C. Clarke temos uma passagem bastante interessante envolvendo Aquele-Que-Vigia-A-Lua, o primata ancestral que aparece no início do filme de Kubrick. Ali conta que após a morte do pai, Aquele-Que-Vigia-A-Lua leva o corpo para algum lugar longe do local onde vive. Ao dar as costas, ele se esquece automaticamente, pois aquilo não é necessário para sua sobrevivência.

Logo adiante, o primata tem uma leve impressão que viveu um dia bom, mas não sabe como isso pode ser possível, já que ele não se lembra dos ruins para criar um modelo comparável. Ou seja, o nascimento da nossa consciência surge quando passamos a criar um amontoado de memórias, que vai nos moldando dia após dia. Se ao fecharmos os nossos olhos e esquecermos de tudo, seríamos ainda seres humanos? Ou um simples invólucro?

 The Original (S01E01)

Aos chamados anfitriões de Westworld, foi lhes concebido um novo dom: o de se lembrar. Memórias de uma versão antiga, um amontoado de dados processados que transformam máquinas em  seres com passado. O quão perigoso isso poderá se tornar? Se a busca por sobrevivência foi o primeiro passo para que um dia um ser ancestral tivesse o primeiro lapso de inteligência, os Anfitriões acabam de entrar na sua Idade da Pedra.

Será uma questão de tempo para que essas memórias se relacionem, criem novas conexões e surja uma personalidade. Um ser que, como qualquer outro que caminha nessa Terra, busca pela liberdade. E se Dr. Ford estiver certo sobre a raça humana enganar a evolução? Talvez tenhamos brincado demais de deus.

Em Westworld o primeiro passo para a extinção foi dado.

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