Você precisa mudar a forma como encara podcasts no Brasil

E desapegar de algumas regras.

Luide
Luide
13 de novembro de 2017

Em um vídeo recente, o youtuber Felipe Castanhari fala sobre os desafios de criar conteúdos mais elaborados dentro da plataforma. Em determinado momento, ele mostra o custo de um vídeo de ciências e explica que o retorno do adsense é baixo e não pagaria 20% do investimento. Quem assiste ao vídeo citado, porém, percebe que existe uma marca que não apenas patrocina aquele conteúdo, mas outros dois. Ou seja, apesar das dificuldades do próprio Youtube, a forma como marcas encaram o formato de vídeo como uma ótima fonte de comunicação com o grande público, viabiliza projetos como o Nostalgia Ciência.

Sendo assim, com um suporte financeiro, é possível que Castanhari crie vídeos melhores produzidos que 90% do Youtube brasileiro. Esse suporte financeiro permite ao criador de conteúdo uma certa liberdade inovadora, sempre testando e fazendo aquilo que tem vontade, já que tem a certeza que no fim do mês terá suas contas pagas.

O mesmo não se aplica a podcast brasileiro.

Enquanto nos EUA temos podcasts com milhões de download, ator de Star Wars protagonizando audiodrama e canais de TV ou serviços de streaming saindo no tapa para conseguir os diretos desses programas (a próxima série do criador de Mr. Robot será adaptada de um podcast), aqui no Brasil os produtores precisam se desdobrar para conseguir sobreviver da mídia, com na maioria dos casos, o financiamento coletivo dos ouvintes sendo a única fonte de renda. Essa escassez de investimento não permite que os principais nomes do podcast no Brasil dediquem 100% do seu tempo criativo na produção de seus programas. Podcast por aqui é visto como uma espécie de declaração de amor do autor para aquele tema, ou seja, ele faz por prazer e é assim que adultos levam suas vidas.

Há mais de uma década podcast no Brasil é uma declaração de amor. Se debruçar em uma pauta, se virar nos 30 para conseguir uma gravação honesta (já que poucos tem condição de bancar um estúdio), virar noites editando e ainda precisar lidar com uma barreira que impede novos ouvintes a se conectar com podcasts. Mas todo esse esforço rendeu frutos. Hoje no Brasil temos uma vastidão de excelentes programas publicados diariamente, que vão de temas complexos a coisas ordinárias. Mas justamente por falta de investimentos e um olhar de atenção de agências e marcas, é que muitos acabam presos em um formato que se transformou na cara do podcast no Brasil:

“Conversa de bar” + programas de uma hora de duração + publicação uma vez por semana.

Esse formato imortalizado por aqui graças ao Nerdcast é o mais viável possível. Por ser simples e pouco custoso, foi aos poucos se firmando como a única forma se fazer um podcast no Brasil. Um exemplo de como é difícil realizar projetos mais robustos é o Projeto Humanos de Ivan Mizanzuk. Nessa reportagem ele detalha o complexo trabalho em editar mais 100 horas de material bruto em áudio apenas em períodos de férias, e quem sem a ajuda de colaboradores, seria praticamente inviável realizá-lo. Um dos melhores projetos brasileiros para a internet (pra mim, não tem nada que se compare ao Projeto Humanos hoje no Brasil) sofre com a falta de investimento.

Nerdcast, a bomba atômica do podcast brasileiro: sua qualidade e regularidade fez com que o formato se tornasse referência no Brasil. Da apresentação dos convidados até a edição.

Com isso, é muito mais simples para alguém com uma cabeça cheia de ideias partir para o formato padrão de podcasts, afinal, ainda dá pra inovar dentro dessa fórmula (o Mamilos é um exemplo). Acontece que o ouvinte está há tanto tempo exposto a apenas esse tipo de formato que acabou se engessando. Hoje em dia qualquer programa que fuja da formatação de “tempo, duração e do modo que o tema é explorado” é menos aceito. E já que ninguém gosta de produzir para as moscas, entramos em um ciclo vicioso onde pouca coisa diferente recebe atenção.

Nesse cenário, duas coisas podem contribuir para a expansão e diversidade do podcast no Brasil: novos produtores de conteúdo criando programas diferentes, e com isso atraindo novos ouvintes. Se de ambos os lados temos pessoas sem vícios ou conceitos pré-estabelecidos ao encarar a mídia, isso certamente irá viabilizar novos gêneros.

É preciso desapegar que podcast precisa ser conversa de amigos. É preciso desapegar da ideia que podcast tem que durar uma hora. É preciso desapegar que podcast tem que ser publicado uma vez por semana. É preciso desapegar da ideia que só se ouve podcacsts em trajetos longos.

Você precisa desapegar, mas quem produz precisa responder a esse voto de confiança.

 

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