Você deixaria seu sadismo aflorar no mundo de Westworld?

Chestnut (S01E02) segue questionando...

Luide
Luide
11 de outubro de 2016

No episódio White Christmas de Black Mirror somos apresentados a uma tecnologia chamada Cookie, que nada mais é do que uma inteligência artificial que, após um período inserida dentro do cérebro, entende os padrões comportamentais e se “transforma” em uma versão virtual do seu hospedeiro. Então, um funcionário da empresa que implanta os Cookies, treina essa inteligência artificial para que ela sirva ao seu comprador. O problema é que essa I.A. acredita ser uma pessoa de verdade, já que sua programação agora nada mais é do que um espelho de seu hospedeiro.

Em um determinado momento desse episódio, um desses Cookies confessa um assassinato (que foi cometido pelo seu hospedeiro, no caso) e acaba sendo punido pelo detetive: em seu mundo virtual, cada segundo na Terra equivaleriam a mil anos lá. Ou seja, ele estaria preso para a eternidade, já que não respira ou precisa de alimentos. Mesmo sabendo que ele não é real e não passa de um amontoado de linhas de códigos, sentimos uma certa pena. Um incômodo por ver “alguém” sofrer algo que nenhum humano jamais sofrerá.

Sabemos que o Cookie não sente absolutamente nada, mas ainda assim existe algo que ativa um certo julgamento moral de nossa parte. Em Chestnut (S01E02) de Westworld somos novamente postos a prova, e o que nós seres humanos consideramos como misericórdia e violência. Mesmo sabendo que a mãe morta pelo Homem de Preto é um robô, porque isso nos incomoda? Porque sentimos pena de algo que não está vivo?

Seria a repulsa instintiva por aqueles que praticam o mal? Você, mesmo sabendo que esse ser idêntico a um humano é na verdade um androide, teria coragem de cravar uma faca em sua mão e ver o sangue jogar? Atiraria em um cowboy no balcão apenas para comemorar suas férias? Ou sadismo só existe quando aplicado a seres humanos?

Westworld mostra que seu mundo funciona como um videogame, ao melhor estilo GTA, onde você pode cuspir todos os seus desejos imundos sem se preocupar com julgamentos a respeito de seu caráter. No mundo fictício de Los Santos você pode atirar em policiais, sair com prostitutas, matar pedestres, traficar, torturar, trair, mentir e logo em seguida dormir tranquilamente para voltar a sua rotina. Ali, em Westworld, o dinheiro do cliente é a tesoura que corta qualquer ligação moral com o mundo real.

 Chestnut (S01E02)

Chestnut é outro episódio bastante satisfatório de Westworld. Ajuda muito na construção de seu mundo, aumenta os mistérios e principalmente, segue debatendo a questão da humanidade e o que significa existir. Alguma coisa afetou os Anfitriões e sua evolução agora é parte de uma força natural, invisível, talvez a mesma que um dia soprou a vida na Terra. Falha de programação ou ato intencional, os Anfitriões estão passando por um momento único. É hora de acordar.

E pra encerrar de maneira inacreditável esse episódio, a cena final mostrando o que aparentemente é uma igreja, abre outra gama de possibilidades. A criação da fé, da religião, do homem buscando seu criador. Ou melhor, os Anfitriões. É pra deixar de cabelo em pé qualquer fã de série que se interesse pelo pós-créditos.

Criação e criador, homem e máquina, viver e existir. Westworld está destruindo.

 

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