Você acha normal sair por aí boicotando filmes e séries?

Ou pra você só vale quando é algo que você apoia?

Luide
Luide
11 de maio de 2017

Hollywood trabalha seus grandes lançamentos se baseando em um quadrado mágico. Filmes feitos para agradar homens, mulheres, adultos e crianças. Para que isso aconteça ele precisa ser o mais acessível possível, ou seja, nada de muito desafiador ou robusto em sua temática. É claro que da pra jogar dentro dessa fórmula e fazer coisas boas como Guardiões da Galáxia Vol. 2. A importância daquilo que se é discutido e sua sofisticação depende mais de quem faz do que uma classificação “para maiores“.

Esses filmes quase nunca causam algum mal estar em seu público já que são produtos feitos sob medida. Esse público, portanto, foi se acostumando ao longo dos anos a ver a mesma coisa repetidas vezes, e quando alguém ousa mexer nessa fórmula, ele fica tão perdido e confuso quanto um cachorro abandonado. Como assim? Cadê os personagens brancos e heterossexuais como protagonistas?

É óbvio que apontar o preconceito velado é o caminho mais óbvio, mas esse tipo de acusação é necessária para que a cultura pop se auto examine. Será que somos tão sensíveis assim a temas variados? Por que bastou uma série chamada “Dear White People” estrear na Netflix que muita gente resolveu protestar a respeito do seu tema? Enquanto existia um político roubando e matando, ninguém se preocupou com a moralidade das produções do serviço de streaming?

Depois 5 milhões de visualizações, 100 mil comentários e quase 500 mil dislikes, Justin Simien, criador de Dear White People, resolveu agradecer a audiência do teaser da série:

“Obrigado por me ajudarem a fazer o teaser da série se tornar o vídeo mais visto na história da Netflix!”

O boicote sempre aconteceu em menor ou maior grau, mas obviamente o atual estado dos debates políticos provocam reações mais acaloradas, e com a internet possibilitando que todos tenham vozes, isso acaba impactando nas produções. Recentemente a Paramount revelou ter sido um erro colocar Scarlett Johansson no papel de Major, personagem de Ghost in the Shell. O estúdio credita parte do fracasso nas bilheterias a proporção que o tema ganhou, onde brancos assumem o lugar de orientais. Enquanto isso, a Sony viu o reboot de Caça-Fantasmas naufragar em críticas e público. Até onde esse ódio é relacionado ao cânone da obra, e até onde entra a intolerância?

No Brasil um documentário sobre o filósofo Olavo de Carvalho enfrenta, segundo seu realizador, boicote de diversos festivais, incluindo o mais recente caso que foi notícia na imprensa, onde alguns diretores resolveram retirar seus filmes do Cine PE ao saber que Jardins das Aflições estaria na seleção oficial. Para o crítico Pablo Villaça o assunto é mais complexo que um simples boicote.

Josias Teófilo nos bastidores de seu documentário sobre Olavo de Carvalho. Segundo o cineasta, sua obra sofre perseguição.

Aparentemente as pessoas começaram a descobrir que diretores e roteiristas não são seres de outro mundo, e que sim, possuem ideologias e ideias são expressas em seus filmes. Muitas vezes não fica claro, em outras, é bem didático. Dear White People é uma série que lida com o racismo de forma muito clara, e isso obviamente causa um mal estar em quem não está acostumado em ter suas convicções abaladas.

Filmes e séries são produtos culturais acima de tudo, e devem ser tratados como tal. Deixar de ver algo é uma escolha pessoal, militar para que outros deixem de assistir lembra um movimento muito falado em todo mundo chamado censura. É bem provável que essas pessoas, caso tivessem o poder para tal, certamente proibiriam algumas obras de serem exibidas. Como mostra The Handmaids Tale, algumas ideias começam como um simples vírus e se alastram com uma força quase invisível.

É bom ficar de olho até onde esse tipo de atitude pode te levar.

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