Um episódio sobre irmãos e inveja em Better Call Saul

Chicanery (S03E05) review

Luide
Luide
10 de maio de 2017

É logo no início da bíblia que conhecemos a história de Caim e Abel. Ambos presentearam Deus, porém, somente Abel ganhou o coração do Criador. A razão não era apenas o presente, mas sim o comportamento de Abel, que era bom. Diante disso, Caim sentiu inveja do irmão, e a relação de ambos termina de maneira trágica. Conflitos assim estão espalhados pela história da humanidade, e por mais que a família seja um dos bens mais preciosos que você poderá cultivar, também é uma bomba atômica que às vezes pode explicar.

Sou o terceiro de uma família de quatro irmãos, e tenho um certo orgulho em dizer que nunca brigamos. Somos separados pela distância, ainda assim, cultivamos uma relação próxima. Um dos motivos dessa união é que compartilhamos o mesmo drama: meus dois irmãos mais velhos são filhos do primeiro casamento da minha mãe, eu e o mais novo, do segundo. Em ambas as vezes minha mãe ficou viúva. Pois é. Tanta dor e luto criaram um laço muito poderoso, porém, sei que isso não é uma regra, por mais que a “família” seja exaltada por gente de moral duvidosa.

Em Better Call Saul tivemos, pra variar, outro ótimo episódio, que mais uma vez trabalha os problemas afetivos envolvendo os irmãos Chuck e Jimmy. Em um embate de advogados e interrogatórios, a temporada pela primeira vez esconde Mike e Gus, mas Chicanery (S03E05) mantém o alto padrão graças a momentos brilhantes envolvendo os dois personagens. É o primeiro episódio 100% “Better Call Saul” desse terceiro ano.

Desde sempre a série deixou pistas mostrando que Chuck não tem problemas com Jimmy apenas na questão da advogacia. Em seu depoimento ele até tenta justificar dizendo que a lei é algo sagrado demais para ser violada, e talvez isso possa explicar porque ele tentou sabotar o irmão em outros empregos, e nunca deu um voto de confiança. Talvez por achar que Jimmy não seria responsável o suficiente para carregar o peso de ser um advogado atuante. Mas nós sabemos que não é só isso.

O amor passivo agressivo que Chuck sente por Jimmy é mais complexo, e fica difícil enumerar os motivos. É óbvio que por um lado o irmão mais velho sente algum apreço pelo mais novo. Jimmy é afetivo, carinhoso e amigo. Porém é mentiroso, malandro, e nunca está satisfeito. É ambicioso demais. Isso de alguma forma fere Chuck, que faz o papel do irmão correto desde criança, e que com o avançar da idade, deixou esses sentimentos prevalecerem. Portanto o que era uma simples birra do pequeno Jimmy foi se tornando uma bola de neve de ódio.

E nessa altura da vida, a única forma de Chuck atingir Jimmy é tirando dele sua única conquista, no caso, a licença para advogar. Isso seria um golpe e tanto em algo que o irmão luta durante anos. O único erro de Chicanery foi apostar demais em uma virada no final, que já estava ficando óbvia demais. Essa preguiça em construir uma narrativa mais criativa e envolvente só foi salva graças aos momentos finais onde o ator Michael McKean aproveitou e explodiu, colocando pra fora os verdeiros sentimentos amargurados do personagem.

O saldo final é positivo e Better Call Saul segue fazendo um ótimo ano. E ainda bem que isso aconteceu na metade da temporada, temos tempo para explorar o resultado disso tudo. A pergunta que faço é: quem venceu? Caim ou Abel?

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