The Leftovers: a fé não deixa de ser um ato de coragem

The Book Of Kevin (S03E01) review

Luide
Luide
18 de abril de 2017

Durante boa parte de minha adolescência fui estudante da bíblia com as Testemunhas de Jeová. Minha irmã mais velha chegou a ser batizada, já eu, nunca passei disso. Foi o único período de minha vida que estive envolvido diretamente com uma religião (cresci em um ambiente de “católicos não praticantes”), e apesar de hoje ter algumas críticas ao que eles pregam, vi de perto o deboche e insulto a fé das Testemunhas de Jeová.

Deboche esse que se estende a quase todos que, de alguma forma, praticam sua fé e religião. Da perseguição a cristãos no oriente médio, ao preconceito velado com muçulmanos no ocidente, ou até mesmo a aversão total a religiões de matriz africana, o ato de exercer uma fé vem se tornando uma ato de coragem. Um exemplo bastante comum na internet são as “piadas” em relação a inteligência e decência de um evangélico.

Fé e ceticismo embalam o início da terceira temporada de The Leftovers, uma das melhores e mais experimentais série da atualidade. The Book of Kevin abre mostrando a vida de prováveis puritanos no século 18, onde a espera pelo fim do mundo era uma obsessão. A esperança da salvação e do eterno, fez com que aquelas pessoas praticamente transcendessem o plano terrestre, mesmo ainda sendo de carne osso. A solidão da mulher esperando pelo arrebatamento e os olhares de reprovação é simbólico. Isso é a fé, as “coisas não vistas”.

Esses minutos iniciais repetem a fórmula da aclamada segunda temporada, que mostrou de uma forma bem direta que a cidade de Jarden talvez seja um lugar especial. E se assim como The Leftovers, o mundo caminha para o fim, a fé provavelmente será o tema central dessa temporada, e Kevin, bom, parece ser o centro de tudo.

Algo que a série faz com maestria é conseguir implantar o senso de normalidade mesmo em um ambiente onde o normal, há muito, se perdeu. Jarden se adaptou, ou melhor, se abriu ao mundo, e agora Kevin volta assumir sua vestimenta de policial (que ele veste durante sua última vista ao hotel, ainda na segunda temporada). Apesar de ter encarado seus fantasmas, ainda é assombrado, mas pela sua própria confusão do que é ou não real.

A tentativa de se sufocar é apenas um tentativa de provar a si mesmo que ele está errado? Que ele é um simples mortal? Que Jarden não tem nada de especial? Que estamos todos oprimidos pelo acaso e não existe força maior alguma olhando por nós? É enigmática.

The Leftovers é certeira em levantar todas essas questões sem nunca fazer uma pergunta sequer. A série não deixa de plantar dúvidas e fomentar “teorias”, mesmo que seu grupo de fãs parece não estar preocupado com isso. Não existe, por exemplo, um movimento na internet que tente “desvendar” os “mistérios” de The Leftovers, estão mais preocupados em digerir o que assistiram. Afinal, a série há muito se provou antes de tudo um drama de qualidade com excelentes personagens. Seus temas são universais, e fica impossível não se sensibilizar com as histórias apresentadas.

Que venha o terceiro ano. Que venha o fim do mundo.

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