Sem a nostalgia, o que sobra para Stranger Things?

Stranger Things retorna sem muito o que contar, apoiado no culto dos fãs a própria série.

Luide
Luide
6 de novembro de 2017

Stranger Things foi uma das produções mais agradáveis de 2016. Aquele lance da nostalgia, as homenagens à década de 80 e toda essa conversa de saudar o passado acompanhada do discurso “no meu tempo era melhor” funcionou bem na primeira temporada. No recheio da série existia uma forte mensagem sobre maternidade e principalmente amizade, então foi meio difícil não se render ao carisma inacreditável da molecada e uma história -até então- simples, mas bem executada. Só que esse lance de “referências” e gatilho emocional da nostalgia está em tudo quanto é canto da cultura pop atualmente, e pra seguir com o mesmo encanto, Stranger Things precisava ir além. Muito além.

Acontece que Stranger Things basicamente é uma série de elenco e personagens, e nisso os Duffer Brothers foram pra lá de competentes. Do Jim Hopper ao Jonathan Byers, não tem um descartável na primeira temporada. Se tornaram ícones pops da noite pro dia, a molecada virou tema de cosplay em evento nerd e a Eleven bateu de frente com Jon Snow de personagem mais querido do público. Enfim, Stranger Things transcendeu o que ela tentava referenciar e ali nascia um produto muito particular. O sucesso foi tão inesperado que não faltaram, inclusive, insinuações que a série era fruto do algoritmo da Netflix funcionando a todo vapor.

Tá, mas e aí? O que fazer agora com esses personagens incríveis? Em um mundo ideal de produções, Stranger Things funcionaria como antologia, onde cada temporada poderia explorar algum mistério em diferentes décadas, tornando a série uma verdadeira piada bem humorada com essa questão da nostalgia. Mas por outro lado, porque abrir mão de uma história que já cativou o grande público? A ideia dos Duffer Brothers é fazer essa molecada crescer diante dos nossos olhos, algo como foi com Harry Potter. Então veio a segunda temporada.

Personagem legal não sustenta série. Carisma não conta uma boa história. Pegue Game Of Thrones e veja o desastre de temporada que tivemos pelo simples fato dos criadores investirem nos personagens em detrimento da trama (Daenerys fazendo decisões inacreditáveis só para terminar beijando o Jon Snow e etc). Resumindo: Stranger Things precisava expandir seu universo e trazer o trágico novamente para a vida dos habitantes de Hawkins, e foi exatamente isso que ela fez. Aquela forma muito usada em blockbuster, onde a cada sequência o inimigo é maior e mais forte (e requer mais computação gráfica) e outros personagens passam pelas mesmas provações que o protagonista passou no filme anterior.

Ao contrário da primeira temporada onde todo evento avançava a série para um clímax, os seis primeiros episódios desse segundo ano expõe o problema que caiu no colo dos Duffer Brothers. Sem muito o que contar, Stranger Things fica derrapando e não sabe exatamente se entrega ou guarda para as inevitáveis próximas temporadas. O arco da Eleven, por exemplo, é um erro do início ao fim (e olha que ainda não vi o tal episódio 7) e Millie Bobby Brown precisa de umas aulas de atuação, porque o quesito “crianças fofa” já está desaparecendo.

É preciso dar o braço a torcer e dizer que a solução para entreter o espectador foi inteligente, porém pra lá de preguiçosa. Ao invés de buscar abrigo na nostalgia & referências, Stranger Things passa a investir nela mesma. Os desenhos do Will sendo colados na parede é uma tentativa de reviver aquele belíssimo momento onde Joyce tentava se comunicar com o filho através das luzes de natal. Aquilo foi tão icônico que os Brothers não quiseram abrir mão, mas passou longe de recriarem o mesmo impacto.

Mas Stranger Things tem um charme difícil de se perder. A molecada ainda brilha, com o Dustin praticamente roubando a série pra si. Mas é preciso mais do que isso se quiser justificar todos os esses holofotes.

Seja doador e ajude o Amigos do Fórum a seguir crescendo!
Posts Relacionados
  • 28/08/2017

  • Luide

A pior temporada de Game Of Thrones

  • 25/08/2017

  • Luide

Assista ao trailer da quarta temporada de Black Mirror

  • 23/08/2017

  • Luide

Chegou ao ponto do diretor de Game Of Thrones ter que se justificar…