Rick & Morty não é apenas engraçado: é extremamente inteligente

Rick & Morty brilha ao tocar em temas espinhosos.

Luide
Luide
11 de agosto de 2017

Muitas séries funcionam como um Cavalo de Troia: você começa assistindo esperando alguma coisa, e de repente, percebe que está dentro de algo maior. Os grandes clássicos da TV usaram desse “artifício”, e o maior exemplo de todos sempre será The Wire, que nos EUA pós 11 de setembro foi uma série onde policiais não eram heróis perfeitos, mas seres humanos lidando com os problemas e contrastes de uma cidade obliterada pelas drogas. É bem provável que alguém deu play no primeiro episódio esperando aquilo de sempre, vilões caricatos e detetives geniais que sempre resolvem tudo com sua incrível inteligência.

Há sempre um momento de twist, onde você percebe que tem algo errado, ou melhor, tem algo dando certo. Com Rick & Morty isso acontece, mas em toda primeira temporada. É uma série engraçada? Bastante. O tipo de humor que muitas vezes você apenas abre a boca e pensa “isso é genial“. Mas é muito mais do que isso, assim que os episódios avançam e você cai criando proximidade dos personagens, o roteiro começa explorar pequenas nuances de cada um, até mesmo os pais de Morty que em qualquer série meia boca seriam marginalizados, ficando apenas como um suporte, aqui ganham profundidade e a história daquele casal caberia facilmente em algum drama pomposo de uma hora de duração.

Mas não só isso. Rick & Morty abusa do seu formato com maestria, e em alguns momentos, faz aquilo que poucos tem coragem: ousa. Um exemplo claro dessa coragem em fazer diferente é o episódio Rixty Minutes (S01E08) onde Rick instala uma NET Gato espacial e somos apresentados a uma estranha programação de TV. Lembra em muito o também genial episódio B.A.N. de Atlanta, onde o exagero é usado como recurso narrativo para mostrar o que se consome em entretenimento. O episódio ainda entrega uma profunda reflexão sobre escolhas e consequências, já que o casal Beth e Jerry vivem um drama muito comum: pais jovens que acabam se casando em razão de uma gravidez acidental.

Comemoro esse ano meu segundo dia dos pais, e não há um só dia que não penso no quão vazia seria minha vida sem minha filha, mas da mesma forma, me pego às vezes pensando na possibilidade de “e se eu não tivesse conhecido a mãe da minha filha?“. Mas isso, claro, nunca em tom de arrependimento, já que somos um casal e a Alice não nos obrigou a ficar junto. O mesmo não se pode cobrar dos pais de Morty, e impressiona com a série conduz esse drama em meio a uma comédia maluca de ficção científica sem nunca desrespeitar o peso que isso poderá ter na vida de quem assiste.

Tratar de temas importantes com humor é essencial e Rick & Morty faz isso. E levando em conta o público jovem que consome a série, é uma decisão pra lá de acertarda.

Nada pode ser melhor do que uma série que resolve fazer diferente, seja por um tema ou um episódio experimental. Mas Rick & Morty faz isso ao longo dos 11 episódios de sua primeira temporada.

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