Rick and Morty faz uma terceira temporada madura e ainda mais inventiva

Rick and Morty consegue se destacar em um ano de excelentes séries.

Luide
Luide
3 de outubro de 2017

Você age como presa, mas é um predador” dispara Rick enquanto Jerry é engolido por uma espécie de verme. Em um diálogo recheado de mágoas guardadas, Rick and Morty mostra que seu brilhantismo está em lidar com temas complexos como família, mas sempre de forma imaginativa e bastante fantástica. Na verdade, Rick and Morty é o que aconteceria se This Is Us fosse escrita por Charlie Brooker e dirigida por Donald Glover. A tal “filosofia niilista” que atraiu um número de fãs sedentos por motivos que os levem a ter razões para não acreditar em uma vida plena, fica em segundo, terceiro ou quarto plano nessa terceira temporada.

É muito fácil sair por aí dizendo que não acredita em laços familiares quando se é um pai que abandona a filha. É muito simples não acreditar no amor quando se recolhe a solidão. Rick é uma caricatura necessária na série. Sua obsessão em se colocar acima de valores e sentimentos o transforma em uma verdadeira piada. E nem pra mau exemplo serve. Afinal, é mais simples se transformar em um picles que assumir o trauma que causou em Beth.

Mas se Rick and Morty no fim das contas se expande até realidades alternativas para falar sobre problemas e situações comuns, como prender uma audiência cansada desses temas? Sendo incrível. A série consegue surpreender a cada novo episódio com situações impensáveis e muito esforço para não cair em repetições. Do episódio consagrador que se passa na Cidadela, às memórias apagadas de Morty, existe uma vitalidade em nunca estar no mesmo lugar fazendo a mesma coisa. É se arriscando dentro da própria fórmula.

Junte tudo isso a vários momentos de tensão causados pelo choque familiar: o divórcio de Beth e Jerry (causas e consequências), o amadurecimento de Morty e também os vícios de Rick, que além de um péssimo pai se mostra um péssimo avô. Já ouviu falar de relacionamento abusivo entre pais e filhos? Pois bem, Rick and Morty é quase uma aula didática sobre como isso acontece (às vezes de formas nítidas, mas também quase invisíveis). Um fator decisivo nesse desenvolvimento é a entrada de um time de roteiristas mulheres, que participaram ativamente de todos os 10 episódios desse terceiro ano.

Mas as coisas nem sempre são bem recebidas. Jane Becker (Rickmancing the Stone, S03E02) e Jessica Gao (Pickle Rick, S03E03) sofreram ataques no twitter, o que levou o co-criador Dan Harmon a se manifestar publicamente contra esses tais “fãs”. É o que acontece quando se toca em temas importantes e ao mesmo tempo espinhosos, as pessoas preferem lidar com o elefante no meio da sala que conversar sobre ele. E claro, sobrou para as mulheres, “as loucas”.

De todo modo, Rick and Morty se torna um fenômeno pop no universo das séries como há muito não se via. Cria memes, bordões, teorias, devoção de fãs, discussões e aquelas defesas acaloradas sobre sua qualidade (que não precisa ser discutida, a série se prova sozinha). É uma das melhores produções de um 2017 recheado de excelentes produções. E que a próxima temporada leve o tempo que precisar, o importante é ser tão boa quanto as outras. Sem pressa, por favor.

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