Quando o “futuro distópico” de Black Mirror se torna o nosso “presente real”

Uma programadora russa mantém amigo falecido “vivo” usando inteligência artificial

Luide
Luide
14 de outubro de 2016

O confronto com a morte molda o ser humano desde sempre, e até hoje, não conseguimos entender ou encontrar justificativa para esse evento tão temido. Talvez seja esse um dos motivos que transformou a fé em uma das maiores aliadas do homem, independente a sua cultura. Em todas as religiões o fim da vida é tratado de maneira séria. Das promessas do cristianismo de vida eterna ao lado do Criador, a outras como transcendência ou reencarnação. E porque não no próprio ateísmo. Se a morte encerra um ciclo, temos uma oportunidade de buscar realizações em vida.

Mas não interessa o quão importante você seja ou qual religião pratica. A morte é uma realidade que abraça a todos. E ela virá, aprender a lidar com isso é um dos maiores desafios de quem fica. Em Be Right Back, episódio que abre a segunda temporada de Black Mirror, Charlie Brooker busca entender a questão do luto e como ele, apesar de muitas vezes ser negado, é um importante e delicado caminho a ser percorrido.

Ao perder o marido em um acidente, Martha (Hayley Atwell) descobre que está grávida. Como se não bastasse toda a situação em que se encontra, ela ainda precisa lidar com a futura ideia de criar um filho sozinha. Tentada por uma amiga, ela recorre a um programa que cria um espelho virtual de alguém através de suas redes sociais, e mais profundo ainda se tiver acesso a e-mails e mensagens privadas. Martha, em completo desespero, resolve testar esse aplicativo.

Be Right Back passa então a explorar o desafio do ser humano em se despedir. Martha não aceita a ideia de que Ash (Domhnall Gleeson) tenha partido, portanto, se apega a esse sistema operacional (que mais tarde irá se personificar). Essa atitude é comumente observada em pessoas que se recusam a entrar em luto. Quando meu pai faleceu em 2000, minha mãe demorou um bom tempo para se desfazer de suas roupas. Elas permaneciam no mesmo lugar do armário, como se a qualquer momento ele pudesse voltar e pegar uma camisa.

Ela não aceitava a ideia de ser viúva. Eu muito menos em ser órfão. Certa vez, fui até o armário e peguei uma de suas camisas. Tentei sentir seu cheiro. Foram meses difíceis até a decisão de guardar aquelas roupas. Foi um ato simbólico: finalmente estávamos deixando que ele partisse, sua vida aqui na Terra acabou e caberia a nós honrá-lo mantendo sua memória viva. Mas era preciso aceitar isso.

Em Be Right Back Martha vive a mesma coisa. Mesmo que não tente sentir o cheiro de seu falecido marido, ela busca encontrar nessa inteligência artificial algo que lhe traga recordações. E somente quando percebe o mal que isso lhe causa, ela também resolve “guardar as roupas“. Ash agora é como uma caixa de fotografias guardada no sótão. Apesar do episódio deixar uma sensação incômoda que o robô agora é parte da família, o que ocorre é justamente o contrário. Ele se torna uma lembrança física de alguém que se foi, assim como você deixa na estande de sua sala a foto de alguém querido que faleceu.

O brilhantismo de Black Mirror vem justamente dos paralelos traçados com a nossa realidade ao extrapolar os limites da tecnologia. Agora, é um tanto quanto estranho quando a série de fato coincide com nosso mundo. Luka Inc. é uma empresa com uma proposta bastante estranha: transformar seres humanos em bots, ou basicamente, em robozinhos pra se conversar. Através daquilo que você publica na internet (público ou privado), uma inteligência artificial cria uma versão sua, uma espécie de memória digital.

Eugenia Kuyda é a CEO dessa empresa, e resolveu fazer algo parecido com seu amigo Roman, falecido em 2015 após um acidente. Ele se transformou em @Roman dentro do aplicativo Lukabaixe aqui– e conversa com pessoas nos idiomas inglês e russo. A programadora usou como base a enorme quantidade de mensagens que ela trocou com Roman ao longo dos anos, incluindo as opiniões dele sobre determinados temas. Ou seja, uma espécie de avatar.

Amigos próximos relataram que @Roman é “irritantemente parecido com ele“. Já os pais se dividem, enquanto a mãe encontra no aplicativo uma maneira de matar a saudade do filho, o pai acha algo estranho, já que o avatar nem sempre diz algo que o próprio Roman diria. O pai acha isso importante, pois o ajuda a lembrá-lo do que essa I.A. realmente é: um programa de computador.

Empresas que se propõe a fazer o mesmo não são novidade. Várias startups estão nascendo com o objetivo de lhe tornar “virtualmente imortal“. Ou seja, com sua autorização, elas transformam tudo que você publicou na internet em uma base de dados para assim, no futuro, criar um avatar. Seu corpo morrerá, mas suas opiniões e ofensas serão eternizadas em linhas de código.

Por outro lado, o próprio Black Mirror alerta: cuidado com as memórias que você deseja compartilhar. Boa sorte a todos nós nesse “futuro distópico” que na realidade é um presente bem real.

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